quarta-feira, 23 de outubro de 2013

Programação CineSesc - Guajajara 2013

Programação da Mostra CineMundi que acontece no Cine Praia Grande dentro do grande evento anual do Sesc, a Aldeia Sesc Guajajara de Artes. São nove produções de nacionalidades diferentes, que embora não tenham um elo temático comum, trazem olhares contemporâneos sobre o amor e o fazer cinematográfico ao redor do mundo. Destaque para "Luíses - Solrealismo Maranhense", produção local que contará com debate após a exibição, com presença do Éguas Coletivo Audiovisual. Entrada Franca com retirada de ingressos na bilheteria do Cinema, uma hora antes de cada sessão. Confira datas, horários e sinopses ;)


SEGUNDA (28/10)- 18H - ARGENTINA 
Medianeras – Buenos Aires Na Era Do Amor Virtual (2011) – 1h35min


SINOPSE: Martin (Javier Drolas) e Mariana (Pilar López de Ayala) vivem na mesma rua, em edifícios opostos, mas eles nunca se conheceram. Eles andam pelos mesmos lugares mas nunca notaram um ao outro. Na Buenos Aires de três milhões de habitantes, Medianeras ensaia a arte dos encontros.

SEGUNDA (28/10) - 20H - ALEMANHA
Pina (2011) – 1h43min


SINOPSE: Pina é um filme para Pina Bausch, de Wim Wenders sobre a obra da extraordinária coreógrafa alemã que morreu em 2009. É uma viagem sensual e deslumbrante através das coreografias dançadas no palco e em locais de Wuppertal – cidade em que durante 35 anos foi a casa e o centro de criatividade de Pina Bausch.

TERÇA (29/10) - 18H - FRANÇA
Potiche – Esposa Troféu (2010) – 1h43min


SINOPSE: Anos 1977. Robert (Fabrice Luchini) é um homem desprezível que só pensa nos negócios e não se relaciona bem com ninguém: funcionários, filhos e esposa. Depois de uma greve na fábrica, ele é sequestrado e sua mulher, Suzanne (Catherine Deneuve), assume o comando da empresa, se mostrando uma mulher com capacidade e dons incríveis de administrar a fábrica melhor do que seu marido fazia.

TERÇA (29/10) - 20H - FRANÇA
Esses Amores (2010) – 2h


SINOPSE: Ilva (Audrey Dana) é uma mulher que se envolve em romances facilmente, pagando pela inconsequência de seus amores. Quando morava em Paris, à época da ocupação nazista, apaixonou-se por um soldado alemão. Com a mudança dos rumos da Guerra, ela se envolve com dois soldados americanos. A incapacidade de Ilva em escolher entre um deles cria conflitos e provoca tragédias.

QUARTA (30/10) - 18H - ÁFRICA DO SUL
Borboletas Negras (2011) – 1h40min


SINOPSE: O filme conta a vida da poetisa sul-africana Ingrid Jonker (Carice van Houten) que lutou contra a desigualdade racial em pleno Apartheid. Em seu primeiro discurso ao Parlamento Sul-Africano Nelson Mandela leu o poema dela "The Dead Child of Nyanga " e se dirigiu a ela como uma das melhores poetas da África do Sul.

QUARTA (30/10) - 20H - PORTUGAL
José E Pilar (2010) – 1h57min


SINOPSE: A partir do registro do dia-a-dia da relação entre José Saramago e a jornalista espanhola Pilar Del Río, acompanhamos de forma intimista o casal em sua casa nas ilhas Canárias e em suas viagens pelo mundo. O ponto de partida é o processo de criação, produção e promoção do romance A Viagem do Elefante, desde o momento da construção da história em 2006 até o lançamento do livro no Brasil em 2008. A ficção do romance reflete o percurso do próprio autor, sendo a dura e custosa viagem do elefante um espelho de seus desafios pessoais, entre a doença, o trabalho e o amor por sua esposa.

QUINTA (31/10) - 18H - CANADÁ
O Vendedor (2011) 1h37min


SINOPSE: Marcel Lévesque é um esperto e talentoso vendedor de carros próximo da aposentadoria. Ele tem sido vendedor do mês pelos últimos 16 anos na concessionária em uma decadente região industrial na parte mais fria do Canadá, mas uma tragédia poderá mudar toda a sua vida.

QUINTA (31/10) - 20H - CANADÁ
Incêndios (2010) – 2h19min


SINOPSE:  O último desejo de uma mãe é mandar os gêmeos Jeanne e Simon numa jornada pelo Oriente Médio na busca por suas emaranhadas raízes. Adaptado da aclamada peça de Wajdi Mouawad, Incendies conta a poderosa e comovente história da viagem de dois jovens adultos para o núcleo do ódio profundamente enraizado, das guerras que nunca acabam e do amor duradouro.

SEXTA (01/11) - 18H - BRASIL
Luíses - Solrealismo Maranhense - 1h15min (Exibição e Debate)



SINOPSE: Enquanto uma serpente do tamanho de uma ilha cresce adormecida nas galerias subterrâneas da cidade de São Luís, os ludovicenses enfrentam situações surreais para seguirem vivendo em meio a um cotidiano bruto, mas não percebem que estão passando por tal situação. O real e o imaginário caminham juntos nessa história que dá início a um movimento: o solrealismo.


segunda-feira, 1 de julho de 2013

O Alien de Aço


Nenhum outro herói ecoa tão violentamente no imaginário popular quanto o Super-Homem. Surgido nos quadrinhos no final da década de 1930, já está presente desde os anos 40 em séries animadas e adaptações para a TV e mais tarde, encarnado pelo icônico Christopher Reeve nos cinemas. O Super-Homem é a síntese de todos os outros heróis, desde o uniforme azulão com a famigerada cueca por cima das calças, a capa esvoaçante e o penteado lustrado com cachinho na testa, até a missão mais básica: proteger a humanidade a todo custo. Para além disso, o homem de aço realiza nossa vontade de voar, nossa aspiração pela infalibilidade; faz o “homem comum” virar um quase-deus.

Em Homem de Aço (Man of Steel, 2013) somos convidados a conhecer um outro aspecto do famoso herói. Credenciado pelo estilo do produtor Christopher Nolan, que tem o realismo como arma principal (já discutimos esse cara AQUI) e pela direção criativa e ousada de Zack Snyder (de 300 e Watchmen), a união das forças parece funcionar. Dessa vez o azulão do uniforme dá lugar a tons mais escuros, não tem cueca vermelha e nem cabeleira esquisita. O Super de Henry Cavill é menos plástico que as outras versões, chora eventualmente, perde a compostura, dá porrada.  Além da mudança na ‘linha editorial’ do personagem, é crédito também do próprio ator essa postura mais visceral, mais humana – que honra o posto que pertencerá para sempre, não adianta fazer bico, ao Reeve.

Outro ponto interessante é a estrutura narrativa não-linear, algo que geralmente resulta em quebra de ritmo, mas aqui adotada pelo roteiro de David Goyer (o mesmo da trilogia do Cavaleiro das Trevas), funciona muito bem. Há o primórdio de tudo em Krypton, claro, mas a história vai recorrendo a flashbacks pontuados ao longo do filme que revisitam a infância e adolescência de Clark no Kansas, oxigenando a trama principal. Diane Lane e Kevin Costner como os pais humanos de Clark fazendo a valsa com Russell Crowe e Ayelet Zurer, de Krypton.

Chama atenção ainda o fato de que, a trama essencialmente urbana de Super-Homem aqui ganha contornos de quase ficção científica e invasão alienígena com o terrível general Zod (Michael Shannon é o cara) e seu plano de dominação do planeta. Mais da metade do filme se passa fora das ruas de novayorcóides de Metrópolis. Uma cena onde Lois Lane (Amy Adams, linda) é gentilmente convidada a embarcar numa nave alien me fez, aliás, lembrar certa passagem de Marte-Ataca, tsc.


Finalmente, o excesso de cenas de ação. O Super-Homem é megalomania pura (estamos falando do sujeito que mudou o curso de rotação da Terra, vá lá) e aqui aparentemente a produção teve medo de incorrer no marasmo do filme de Bryan Singer e pesaram a mão nas sequencias de pancadaria. Algumas cenas de luta realmente impressionam e os efeitos são cada vez melhores. Os movimentos de Faora-Ul (Antje Traue) estabelecem a aproximação cada vez mais recorrente da linguagem dos games – ela inclusive lembra muito uma personagem de Detona Ralph. Mas precisava tanto? Acho que não.

E aqui outro problema que talvez seja mais meu que do filme, vejamos se você concorda: falta emoção. Os sentimentos aparecem no roteiro, mas raramente saem da tela. E esse é um ponto fraco crucial, já que num filme de herói, proporcionar empolgação à plateia é tarefa básica.

Seja como for, é um filme correto, bem feito, muito superior a qualquer coisa produzida sobre o Super-Homem nos últimos anos e que já tem sequencia garantida. Sempre com a melhor das expectativas, vamos aguardar o que há de vir.

Leia Também:

Os Maiores Vacilos do Novo Aranha

> Qual é a Tua, Christopher Nolan? 

quarta-feira, 12 de junho de 2013

TOP5 – Maratona dos Apaixonados

A cena é conhecida de todos nós: geralmente nos últimos momentos do filme, o personagem apaixonado resolve deixar tudo para trás e parte em desabalada carreira rumo aos braços do amor verdadeiro. Já que na vida real cenas assim são bem raras, vamos a cinco personagens maratonistas do amor - e donos de um surpreendente preparo físico. Atenção: dependendo do seu grau de exigência, este post pode conter spoilers.

5 - O Amor Não Tira Férias (The Holiday, 2006)


-Quem corre? –Amanda Woods (Diaz)

-A troco de que? –Entregar-se aos braços de seu amado, Graham (Law)

Apesar do título calhorda, este belo chick-flick assinado pela competente Nancy Meyers é de lavar a alma. São duas histórias em uma e o trânsito equilibrado entre elas, define o ritmo do filme. Em linhas brutais: o eixo Cameron Diaz/Jude Law corresponde ao senso comum das comédias românticas modernas e o eixo Kate Winslet/Jack Black percorre um caminho mais ousado e menos comum. É assim que, depois de superar uma cascata de empecilhos, a personagem de Cameron Diaz corre, trupicando na neve, para se jogar nos braços do (na época menos careca) Jude Law. 

4 - Manhattan (Manhattan, 1979)


-Quem corre? –Isaac Davis (Allen)

-A troco de quê? –Impedir que sua adorada Tracy (Hemingway) parta para Londres!

Maravilha visual de Woody Allen que, em parceria com o mestre da fotografia Gordon Willis (o mesmo de “O Poderoso Chefão”), deixou Manhattan ainda mais linda em preto e branco. A história gira em torno da paixão entre Isaac Davis (Allen), de 42 anos e Tracy (Mariel Hemingway), de 17. A disparidade nas idades do casal deixa Davis inseguro e o leva a se envolver com Mary Wilkie (Diane Keaton). Quando ele finalmente se permite ouvir seu coração, nada segura sua resfolegante carreira rumo aos braços de sua amada, que estava de malas prontas pra Londres. Corre, Woody!

3 - Corra Lola, Corra (Lola Rennt, 1998)


-Quem corre? –Lola (Potente)
-A troco de quê? –Recuperar a grana perdida por Manni (Bleibtreu), o namorado vacilão

Provavelmente a maratonista mais dedicada da lista, a obstinada Lola (Franka Potente) precisou correr contra o tempo para salvar a pele do namorado Manni (Moritz Bleibtreu). O sujeito portava uma imensa quantidade de dinheiro que devia ser entregue ao chefe da quadrilha de bandidos à qual ele pertencia, mas acaba perdendo a bolsa cheia de grana no trem. Lola dá início a uma correria desenfreada para recuperar o dinheiro num espaço de vinte minutos (roubar um banco? pedir emprestado?), resgatando o namorado do pagamento mais caro de todos: sua vida. O filme ficou famoso pela montagem ensandecida que lança mão de vários recursos visuais, contando a mesma história por três vezes, de perspectivas e resoluções diferentes.

2 - Harry & Sally – Feitos Um Para o Outro (When Harry Met Sally..., 1989)


-Quem corre? –Harry Burns (Crystal)

-A troco de quê? –Recuperar o amor de Sally Albright (Ryan) em pleno Réveillon.

‘Men and women can't be friends because the sex part always gets in the way’. Injustamente estigmatizado pela cena em que Meg Ryan simula um orgasmo em plena lanchonete, o filme de Rob Reiner é um marco do gênero, ao melhor estilo guerra dos sexos. O trunfo aqui é mesmo a verborragia esperta e neurótica dos diálogos escritos por Nora Ephron (gênia). Mas há ainda um bom bocado de piadas visuais, a música de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, as paisagens de Nova York - ingredientes que tornam a mistura tão charmosa e especial. A história, que se passa em 11 anos de idas e vindas, é intercalada por depoimentos reais de casos de amor que deram certo. Difícil resistir a reprises e mais reprises e à cena final, com Harry (Crystal) correndo desesperadamente para encontrar a desconsolada Sally (Ryan) em plena noite de Réveillon. 

1 - A Primeira Noite de Um Homem (The Graduate, 1967)


-Quem corre? – Benjamin Braddock (Hoffman)

-A troco de quê? –Resgatar a bela Elaine Robinson (Ross) do altar

Clássico definitivo de Mike Nichols (“Closer – Perto Demais”), “A Primeira Noite de Um Homem” traz um Dustin Hoffman um pouco velho demais para o papel de Benjamin Braddock, um garoto recém-formado que retorna pra casa depois dos anos de universidade. Ele não esperava que a amiga da família, a famosa Mrs. Robinson (Anne Bancroft) fosse dar margem para a icônica indagação “Are you trying to seduce me?” e muito menos que ele iria se envolver com sua linda filha, Elaine Robinson (Katharine Ross). Aturdido por uma série de impasses, Ben Braddock (esse nome é mesmo ótimo) é compelido a correr léguas e léguas em busca do amor de sua Elaine. 

***

E aí, você também já correu atrás do prejuízo? 


Obs.: "Maratona dos Apaixonados" foi originalmente postado no Jornal Pequeno. Este é um repost. Todos os direitos reservados, bicho.

Até mais! ;)

quarta-feira, 5 de junho de 2013

Outra vez Gatsby

Um dos temas mais nervosos do cinema atual é, sem dúvida, a falta de originalidade nas produções. Reclama-se da multidão de remakes, reboots, incontáveis sequências, adaptações (de livros, quadrinhos, games, peças teatrais...), a lista não termina. No baile oportunista da reciclagem de histórias, o filete de roteiros originais torna-se cada vez mais tímido e recuado. Assim, é com leve estranhamento que se recebe a notícia de que o clássico livro do americano F. Scott Fitzgerald ganha agora outra versão para as telonas. Vai vendo.

Robert Redford e Mia Farrow na versão de 1974
A trama do livro se passa na Long Island da década de 1920, ainda em ressaca da Primeira Guerra, com o fervor do jazz, a ascensão do império de bebidas ilegais, romances libertinos e baixa moralidade. É ali que o escritor aspirante Nick Carraway conhece o magnata recém-chegado Jay Gatsby, que promove enormes festas em sua mansão, com a presença de visitantes dos mais altos níveis sociais, desde milionários excêntricos a estrelas do cinema hollywoodiano. Enquanto Nick se vê naufragando no artificial mundo da supervalorização de posses e bens materiais, passa a conhecer as reais intenções de Gatsby, bem como as sombras em seu passado.

Sendo assim, tanto interesse cinematográfico na obra se justifica - o livro de Fitzgerald já foi adptado para as telas pelo menos cinco vezes. O enredo retrata casos de amor perdidos, traições escandalosas; é espirituoso, surpreendente - e eventualmente envolve certa sacanagem. Trata-se de um dos romances mais importantes do século XX e um dos retratos mais fiéis da fragilidade da alta sociedade americana, que caminhava para o destino inevitável da Grande Depressão. 

A obra revisitada: DiCaprio e Mulligan
A primeira experiência do diretor Baz Luhrmann (“Moulin Rouge – Amor em Vermelho”)  com o 3D conta ainda com uma definição de elenco equilibrada entre talento e popularidade: Leonardo di Caprio, agora com 38 anos, como o misterioso Jay Gatsby. Carey Mulligan interpreta Daisy Buchanan e Tobey Maguire é Nick Carraway, o narrador. A produção executiva do rapper Jay-Z já entrega que o uso anacrônico de trilha sonora mistura pop/contemporâneo a cenários de época deve contar pontos a favor do novo Gatsby. O filme estreia nos cinemas nesta sexta (07/06). Até lá!



sexta-feira, 31 de maio de 2013

João e o Faroeste do Planalto


Seguindo a esteira de filmes que circundam a obra de Renato Russo, icônico líder da banda Legião Urbana “Faroeste Caboclo” (do estreante René Sampaio, 2013) surge no vácuo deixado pelo recém-lançado “Somos Tão Jovens” (2013). Com base na enorme música homônima (aquela que você decorou de ponta a ponta), o roteiro de Victor Atherino e Marcos Bernstein se dedica a desenvolver a trajetória tortuosa do tal João, natural de Santo Cristo, Bahia. E acerta.

Chamando atenção já nos primeiros quadros pela Direção de Arte assinada por Tiago Marques Teixeira, o mesmo de “Ensaio Sobre a Cegueira” (2008), que explora a aridez do sertão baiano com cuidadosa atenção aos figurinos. Repare que as cores adotadas ali praticamente se confundem com a dos cenários, transmitindo bem a percepção desértica do lugar. Vários outros detalhes dão conta de ajustar a distância temporal do filme: observe a árvore de natal na casa do primo Pablo (Troncoso), os carpetes, as cortinas, os cabelos. A cadeira fabricada pelo carpinteiro João é vista de forma discreta num momento posterior da trama, já envernizada e fazendo parte da mobília.

Outro ponto positivo são as boas Transições de Cena que servem não meramente como elipses (o João criança joga um balde no poço que é puxado pelo mesmo João, já adulto), mas também como reforços charmosos à narrativa (o som de uma porta fechada com força é ouvido na cena seguinte, com João obstinado batendo com um maço de dinheiro sobre a mesa). Além do quase split-screen que mostra uma externa do apartamento onde é possível ver o casal protagonista transando por uma janela e na janela ao lado, o pai de Maria Lúcia (Marcos Paulo) lê um jornal completamente inconsciente do que acontece na própria casa.

Aliás, a Direção de Atores (antes, o casting) bem trabalhada intensifica o potencial dramático do filme. Os olhos de Fabrício Boliveira (o João) frequentemente dizem muito mais que as falas. Isis Valverde imprime muita sinceridade à Maria Lúcia, deixando um pouco mais distante a sombra de sua personagem Suelen. E Felipe Abib capricha na inconstância e insanidade de Jeremias, o Scarface do Planalto Central.
É preciso mencionar também a franqueza do texto, não só quando se trata de palavrões, mas ainda no uso de termos passiveis de serem interpretados como “pesados” em tempos de patrulha do politicamente correto. A discriminação racial sofrida pelo protagonista, por exemplo, aparece aqui Sem Covardia no Palavreado.

No entanto, como toda adaptação cinematográfica, é natural que fãs da obra original reclamem a Não-Similaridade entre um texto e outro. Aqui há algumas omissões que buscam simplificar a narrativa, tornando-a mais fluida e direta: os dois lados da moeda, o romance, o conflito, a resolução, o fim. Embora talvez a maior omissão tenha relação com a personalidade do protagonista.

O João de Renato Russo tem vocação para o crime e parece fazer parte de uma trajetória com destino definido que vai do inferno à absolvição. Mas para o Cinema com protagonista heroico, é necessário adotar uma personalidade que destaque virtudes inconfundíveis. Não há como fazer com que a plateia torça (ou sinta compaixão) por um sujeito com péssimas intenções, ruim de gênio. Sendo assim, o João do filme é uma boa alma que, atraída para circunstâncias que o fazem cometer crimes, torna-se um “fora-da-lei”. No Cinema, o herói nos redime ao encarnar o que há de melhor em nós. 

Seja como for, o tal João de Santo Cristo figura aqui num filme que bebeu a contento das fontes do Western clássico para nos entregar uma história imperfeita, mas empolgante - e destemida, exatamente como seu herói. 

domingo, 20 de janeiro de 2013

A Muralha de Proteção do Sr. Quentin Tarantino


Os diretores de cinema parecem ter atingido o sucesso irrestrito quando conseguem ser reconhecidos e apreciados por um estilo próprio que os diferencie de seus colegas cineastas. Ao adotar uma abordagem temático-estética notadamente original, repetidas vezes, o realizador pode consolidar-se em gêneros como Alfred Hitchcock está para o suspense. Pode ser reconhecido pelo apelo ao gótico como Tim Burton. Às comedias neuróticas e existencialistas como Woody Allen. Às explosões aparentemente injustificadas como er... Michael Bay. Além de tantos outros exemplos.

Em Django Livre (Django Unchained, 2012), o festejado cinquentão Quentin Tarantino pavimenta outra vez o trajeto que lhe caracteriza. Lá está ele derramando alguns barris de sangue falso no colo do espectador, versando longamente em diálogos de câmera sossegada, fisgando nossa atenção para o humor sádico e nos envolvendo nas razões do protagonista única e exclusivamente para saborearmos uma bela cena final de vingança. E a ordem é saborear mesmo. A trama submete os personagens a toda espécie de injúria para que o triunfo da vingança seja realçado entre gargalhadas e gracejos do mais puro contentamento.

Não é por acaso que os dois últimos longas do diretor tenham abordado temas que despertam, sem restrições, a indignação da humanidade: nazismo em Bastardos Inglórios e escravidão neste Django Livre. A identificação da plateia é canalizada facilmente contra inimigos em comum, seja os impiedosos nazistas-genocidas, seja os senhores de escravos tratando gente como bestas sem cérebro. Apesar de recorrer frequentemente ao humor (sádico, pérfido, é bem verdade) que funciona aplainando a crueldade de algumas cenas, em outros momentos, confesso, é comum a sensação de “epa, dessa vez esse cara tá indo longe demais”.

Seja como for, ao insistir na fórmula, Tarantino cria uma espécie de muralha anti-crítica. Se a reclamação partir das extensas tomadas com diálogos que muitas vezes não evoluem a narrativa (lembrar da memorável discussão sobre a virgindade da Madonna em Cães de Aluguel) a resposta é “este é o estilo Tarantino”. Se a crítica surgir do apelo à violência gráfica e aos jorros de sangue (as mutilações em Kill Bill) a resposta é “assim é Quentin Tarantino”. -“Ai, é violento demais!” –“Vá assistir Cameron Crowe!”. E assim por diante.

Django Livre é afetação pura. Mas é delicioso notar que, para além da “assinatura do Tarantino” cada vez menos underground, o apuro técnico vem se tornando cada vez mais preciso. A fotografia em Django corta os chapéus dos personagens e canecas de cerveja com fachos de luz (atenção para a cena de Waltz explicando a lenda de Broonhilda), os super-closes do Sergio Leone estão todos lá, a trilha sonora tem uma música assinada por Ennio Morricone, o som do filme é maravilhoso (repare nos estalidos dos gatilhos) e o figurino apurado acompanhando, por exemplo, a evolução do protagonista Django de escravo a caçador de recompensas.

Finalmente, para quem gosta dos filmes de Tarantino e, por tanto, aceita ser barrado pela tal Muralha de Proteção, o único medo é de que a fórmula se torne engessada ou óbvia demais num futuro próximo. Entre litros de sangue e verborragia, só nos resta aguardar.

terça-feira, 1 de janeiro de 2013

Balanço do Ano - 2012



2012 foi o quinto ano desde que eu decidi ceder ao TOC e listar os filmes vistos a cada mês, sempre dividindo entre Inéditos (em negrito na lista), Reprises (sem negrito) e Idas ao Cinema (negrito e azul). Esse também foi o ano em que eu menos me dediquei às anotações, por isso acabei perdendo muitos para minha memória vacilona. 2012 foi o ano do Vincent Price, das pilhas de filmes de Frankensteins, Dráculas e Múmias. Foi também o ano do Brian De Palma em começo de carreira. Tintim do Spielberg e Hugo Cabret do Scorsese no melhor do 3D desde Avatar. Frustrações com o Novo Aranha. O ano do Batman. O ano do esperado Hobbit. Vamos aos números.

Inéditos: 192 filmes (contra os 128 de 2011)
Vistos no Cinema: 34 (um a mais que em 2011, uai)
Reprises: 63 (como eu acabo deixando de anotar as reprises, esse número com certeza é BEM maior :T)
Total: 255 filmes vistos em 2012
  1. As Aventuras de Tintim – O Segredo do Licorne (2012) [Link]
  2. Cavalo de Guerra (2012) [Link]
  3. O Império do Sol (1987)
  4. O Comboio do Medo (1977)
  5. Imortais (2011)
  6. Sherlock Holmes: O Jogo de Sombras (2011)
  7. Melancolia (2011)
  8. Precisamos Falar Sobre o Kevin (2011)
  9. Millennium – Os Homens Que Não Amavam as Mulheres (2012) [Link]
  10. Vejo Você no Próximo Verão (2010)
  11. Amargo Pesadelo (1972)
  12. 50/50 (2011)
  13. Missão Madrinha de Casamento (2011)
  14. O Artista (2011) [Link]
  15. A Invenção de Hugo Cabret (2011)
  16. Toda Forma de Amor (2011)
  17. O Homem que Mudou o Jogo (2011)
  18. Os Descendentes (2011) [Link]
  19. Os Muppets (2011)
  20. A Árvore da Vida (2011)
  21. Histórias Cruzadas (2011)
  22. J. Edgar (2011)
  23. Tão Forte e Tão Perto (2011)
  24. Operação Presente (2011)
  25. Uma Aventura na África (1951)
  26. Princesa Mononoke (1997)
  27. Alien, O Oitavo Passageiro (1979)
  28. A Dama de Ferro (2011)
  29. A Guerra Está Declarada (2011)
  30. Jogos Vorazes (2012)
  31. Os Vingadores (2012) [Link]
  32. Mamma Gogo (2010)
  33. Passe Livre (2011)
  34. Aliens, O Resgate (1986)
  35. Alien 3 (1992)
  36. Dick Tracy (1990)
  37. Desconstruindo Harry (1997)
  38. Contos de Nova York (1989)
  39. Dirigindo no Escuro (2002)
  40. A Mulher de Preto (2012)
  41. Sexo Sem Compromisso (2011)
  42. Inquietos (2011)
  43. Marcas da Violência (2005)
  44. Viagem Fantástica (1966)
  45. Laura (1944)
  46. Uma Noite Sobre a Terra (1991)
  47. O Pescador de Ilusões (1991)
  48. A Mulher Faz o Homem (1939)
  49. A Última Missão (1973)
  50. Pulp Fiction – Tempo de Violência (1994)
  51. Fargo – Uma Comédia de Erros (1996)
  52. O Franco-Atirador (1978)
  53. Os Pássaros (1963)
  54. Closer – Perto Demais (2004)
  55. Kingpin – Estes Loucos Reis do Boliche (1996)
  56. Em Paris (2007)
  57. Planeta Terror (2007)
  58. À Prova de Morte (2007)
  59. Quem Vai Ficar com Mary? (1998)
  60. De Repente 30 (2004)
  61. Túmulo dos Vagalumes (1988)
  62. Repulsa ao Sexo (1965)
  63. Doce Pássaro da Juventude (1965)
  64. A Casa dos Maus Espíritos (1959)
  65. O Mercador de Almas (1958)
  66. Shame (2011)
  67. Memórias de Um Assassino (2003)
  68. Zona de Risco (2000)
  69. Fuga do Passado (1947)
  70. O Homem Mosca (1923)
  71. Em Nome do Pai (1993)
  72. A Década Que Mudou o Cinema (2003)
  73. Vivendo no Limite (1999)
  74. Taxi Driver (1976)
  75. Amar Foi Minha Ruína (1945)
  76. Uma Viagem com Martin Scorsese pelo Cinema Americano (1995) [Link]
  77. Compramos um Zoológico (2011)
  78. Bullitt (1968)
  79. Snatch – Porcos e Diamantes (2000)
  80. Marte Ataca! (1996)
  81. O Rei da Paquera (1987)
  82. Agora Seremos Felizes (1944)
  83. A Separação (2011)
  84. O Palhaço (2011)
  85. Leila Diniz (1987)
  86. A Última Tentação de Cristo (1988)
  87. O Mensageiro do Diabo (1955)
  88. A Época da Inocência (1993)
  89. Assim Estava Escrito (1952)
  90. Lua de Fel (1992)
  91. A Invasão (1993)
  92. Gilbert Grape – Aprendiz de Sonhador (1993)
  93. Peggy Sue – Seu Passado a Espera (1986)
  94. O Selvagem da Motocicleta (1983)
  95. O Apocalipse de um Cineasta (1991)
  96. Apocalypse Now (1979)
  97. O Mais Longo dos Dias (1962)
  98. Irreversível (2002)
  99. Procura-se Amy (1997)
  100. O Garoto (1921)
  101. Domicílio Conjugal (1970)
  102. O Castelo de Cagliostro (1979)
  103. O Homem do Sapato Vermelho (1985)
  104. À Beira do Abismo (1946)
  105. O Tiro que Não Saiu Pela Culatra (1989)
  106. Lembranças de Hollywood (1990)
  107. O Garoto da Bicicleta (2011)
  108. Matar ou Morrer (1952)
  109. O Senhor dos Anéis – Sociedade do Anel (2001)
  110. O Senhor dos Anéis – As Duas Torres (2002)
  111. O Senhor dos Anéis – O Retorno do Rei (2003)
  112. E.T. – O Extra Terrestre (1982)
  113. Estrada Para Perdição (2002)
  114. O Aviador (2004)
  115. Conta Comigo (1986)
  116. Star Wars – Episódio I – Ameaça Fantasma (1999) C
  117. Star Wars – Episódio IV – Uma Nova Esperança (1977)
  118. Star Wars – Episódio V – O Império Contra-Ataca (1980)
  119. Star Wars – Episódio VI – O Retorno de Jedi (1983)
  120. Sombras da Noite (2012)
  121. No Domínio do Terror (1963)
  122. A Fita Branca (2009)
  123. Waking Sleeping Beauty (2010)
  124. Napoleão e Samanta (1972)
  125. Os Irmãos Cara-de-Pau (1980)
  126. A Bela da Tarde (1967)
  127. Stan Lee – Mutantes, Monstros e Quadrinhos (2002)
  128. Superman - O Filme (1978)
  129. Superman II - A Aventura Continua (1980)
  130. Vestida Para Matar (1980)
  131. O Pagamento Final (1993)
  132. Scarface (1983)
  133. Um Tiro na Noite (1981)
  134. Carrie: A Estranha (1976)
  135. Ânsia de Amar (1971)
  136. As Irmãs Diabólicas (1973)
  137. Submarine (2010)
  138. O Espetacular Homem-Aranha (2012) [Link]
  139. Medianeras: Buenos Aires na Era do Amor Virtual (2011)
  140. O Homem-Urso (2005)
  141. Irmão Urso (2003)
  142. Valente (2012) [Link]
  143. Os Incríveis (2004)
  144. Ratatouille (2007)
  145. Coraline e o Mundo Secreto (2009)
  146. Mulan (1998)
  147. Como Treinar o Seu Dragão (2010)
  148. O Mágico de Oz (1939)
  149. A Dama e o Vagabundo (1955)
  150. Indiana Jones e o Reino da Caveira de Cristal (2008)
  151. Tarzan (1999)
  152. Enrolados (2010)
  153. Monstros S.A. (2001)
  154. A Nova Onda do Imperador (2000)
  155. Os Caça-Fantasmas (1984)
  156. A Fantástica Fábrica de Chocolate (1971)
  157. Na Estrada (2012)
  158. O Abominável Dr. Phibes (1971)
  159. As Sete Máscaras da Morte (1973)
  160. O Garoto do Futuro (1985)
  161. Labirinto: A Magia do Tempo (1986)
  162. O Planeta dos Macacos (1968)
  163. O Poço e o Pêndulo (1961)
  164. Dr. Morte (1974)
  165. A Lenda dos Beijos Perdidos (1954)
  166. Casa, Comida e Carinho (1950)
  167. Marujos do Amor (1945)
  168. Cantando na Chuva (1952)
  169. Sinfonia de Paris (1951)
  170. Batman Begins (2005)
  171. Batman – O Cavaleiro das Trevas (2008)
  172. Batman – O Cavaleiro das Trevas Ressurge (2012) [Link]
  173. A Mosca da Cabeça Branca (1958)
  174. A Múmia (1932)
  175. Terapia de Doidos (1980)
  176. O Garoto de Liverpool (2009)
  177. Drácula (1931)
  178. Choque (1946)
  179. Museu de Cera (1951)
  180. A Lenda do Cavaleiro Sem Cabeça (1999)
  181. O Homem do Sputinik (1959)
  182. Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 1 (2010)
  183. Harry Potter e as Relíquias da Morte – Parte 2 (2011)
  184. King Kong (2005)
  185. Touro Indomável (1980)
  186. Homem-Aranha 2 (2004)
  187. O Voo do Navegador (1986)
  188. Brilho Eterno de Uma Mente Sem Lembranças (2004)
  189. Wall-E (2008)
  190. Flores Partidas (2005)
  191. Noites de Cabíria (1957)
  192. O Coronel e o Lobisomem (2005)
  193. Harry e Sally – Feitos um Para o Outro (1989)
  194. Uma Cilada para Roger Rabbit (1988)
  195. Frankenstein (1931)
  196. Para Roma Com Amor (2012)
  197. A Noive de Frankenstein (1935)
  198. Encurralado (1971)
  199. Mad Max (1979)
  200. Sindicato de Ladrões (1954)
  201. Uma Carta Para Elia (2010)
  202. O Castelo Assombrado (1963)
  203. Cafundó (2005)
  204. Castelo Rá-Tim-Bum – O Filme (2000)
  205. Não Por Acaso (2007)
  206. Deus da Carnificina (2011)
  207. Matar ou Correr (1954)
  208. Reviravolta (1997)
  209. Dublê de Corpo (1987)
  210. Sombras (1959)
  211. Os Infratores (2012)
  212. O Corvo (1963)
  213. Muralhas do Pavor (1962)
  214. Um Dia (2011)
  215. Moonrise Kingdom (2012)
  216. Ted (2012)
  217. A Fúria (1978)
  218. Houve Uma Vez Dois Verões (2002)
  219. Lanterna Verde (2011)
  220. John Carter – Entre Dois Mundos (2012)
  221. A Casa de Frankenstein (1944)
  222. Frankenweenie (2012) [Link]
  223. Argo (2012)
  224. Intocáveis (2011)
  225. Lolita (1962)
  226. 2001 – Uma Odisséia no Espaço (1968)
  227. Laranja Mecânica (1971)
  228. Barry Lyndon (1975)
  229. O Iluminado (1980)
  230. Nascido Para Matar (1987)
  231. Marighella (2012)
  232. Vestido de Laerte (2012)
  233. Hoje (2012)
  234. Estruturas Metálicas (2011)
  235. A Galinha que Burlou o Sistema (2012)
  236. Disque Quilombola (2012)
  237. Na Pista do Apito (2008)
  238. Os 12 Macacos (1995)
  239. A Música Segundo Tom Jobim (2012)
  240. As Crônicas de Spiderwick (2008)
  241. A Serbian Film – Terror Sem Limites (2010)
  242. O Profissional (1994)
  243. Cosmópolis (2012)
  244. Hora de Voltar (2004)
  245. Toast (2010)
  246. Ruby Sparks (2012) [Link]
  247. Bem Vindo à Casa de Bonecas (1995)
  248. Desapego (2011)
  249. O Hobbit – Uma Jornada Inesperada (2012) [Link]
  250. Looper – Assassinos do Futuro (2012)
  251. 2 Coelhos (2012)
  252. A Origem dos Guardiões (2012)
  253. Eu Receberia as Piores Notícias dos Seus Lindos Lábios (2011)
  254. Papai Noel às Avessas (2003)
  255. Holy Motors (2012)