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quarta-feira, 5 de junho de 2013

Outra vez Gatsby

Um dos temas mais nervosos do cinema atual é, sem dúvida, a falta de originalidade nas produções. Reclama-se da multidão de remakes, reboots, incontáveis sequências, adaptações (de livros, quadrinhos, games, peças teatrais...), a lista não termina. No baile oportunista da reciclagem de histórias, o filete de roteiros originais torna-se cada vez mais tímido e recuado. Assim, é com leve estranhamento que se recebe a notícia de que o clássico livro do americano F. Scott Fitzgerald ganha agora outra versão para as telonas. Vai vendo.

Robert Redford e Mia Farrow na versão de 1974
A trama do livro se passa na Long Island da década de 1920, ainda em ressaca da Primeira Guerra, com o fervor do jazz, a ascensão do império de bebidas ilegais, romances libertinos e baixa moralidade. É ali que o escritor aspirante Nick Carraway conhece o magnata recém-chegado Jay Gatsby, que promove enormes festas em sua mansão, com a presença de visitantes dos mais altos níveis sociais, desde milionários excêntricos a estrelas do cinema hollywoodiano. Enquanto Nick se vê naufragando no artificial mundo da supervalorização de posses e bens materiais, passa a conhecer as reais intenções de Gatsby, bem como as sombras em seu passado.

Sendo assim, tanto interesse cinematográfico na obra se justifica - o livro de Fitzgerald já foi adptado para as telas pelo menos cinco vezes. O enredo retrata casos de amor perdidos, traições escandalosas; é espirituoso, surpreendente - e eventualmente envolve certa sacanagem. Trata-se de um dos romances mais importantes do século XX e um dos retratos mais fiéis da fragilidade da alta sociedade americana, que caminhava para o destino inevitável da Grande Depressão. 

A obra revisitada: DiCaprio e Mulligan
A primeira experiência do diretor Baz Luhrmann (“Moulin Rouge – Amor em Vermelho”)  com o 3D conta ainda com uma definição de elenco equilibrada entre talento e popularidade: Leonardo di Caprio, agora com 38 anos, como o misterioso Jay Gatsby. Carey Mulligan interpreta Daisy Buchanan e Tobey Maguire é Nick Carraway, o narrador. A produção executiva do rapper Jay-Z já entrega que o uso anacrônico de trilha sonora mistura pop/contemporâneo a cenários de época deve contar pontos a favor do novo Gatsby. O filme estreia nos cinemas nesta sexta (07/06). Até lá!



sexta-feira, 31 de maio de 2013

João e o Faroeste do Planalto


Seguindo a esteira de filmes que circundam a obra de Renato Russo, icônico líder da banda Legião Urbana “Faroeste Caboclo” (do estreante René Sampaio, 2013) surge no vácuo deixado pelo recém-lançado “Somos Tão Jovens” (2013). Com base na enorme música homônima (aquela que você decorou de ponta a ponta), o roteiro de Victor Atherino e Marcos Bernstein se dedica a desenvolver a trajetória tortuosa do tal João, natural de Santo Cristo, Bahia. E acerta.

Chamando atenção já nos primeiros quadros pela Direção de Arte assinada por Tiago Marques Teixeira, o mesmo de “Ensaio Sobre a Cegueira” (2008), que explora a aridez do sertão baiano com cuidadosa atenção aos figurinos. Repare que as cores adotadas ali praticamente se confundem com a dos cenários, transmitindo bem a percepção desértica do lugar. Vários outros detalhes dão conta de ajustar a distância temporal do filme: observe a árvore de natal na casa do primo Pablo (Troncoso), os carpetes, as cortinas, os cabelos. A cadeira fabricada pelo carpinteiro João é vista de forma discreta num momento posterior da trama, já envernizada e fazendo parte da mobília.

Outro ponto positivo são as boas Transições de Cena que servem não meramente como elipses (o João criança joga um balde no poço que é puxado pelo mesmo João, já adulto), mas também como reforços charmosos à narrativa (o som de uma porta fechada com força é ouvido na cena seguinte, com João obstinado batendo com um maço de dinheiro sobre a mesa). Além do quase split-screen que mostra uma externa do apartamento onde é possível ver o casal protagonista transando por uma janela e na janela ao lado, o pai de Maria Lúcia (Marcos Paulo) lê um jornal completamente inconsciente do que acontece na própria casa.

Aliás, a Direção de Atores (antes, o casting) bem trabalhada intensifica o potencial dramático do filme. Os olhos de Fabrício Boliveira (o João) frequentemente dizem muito mais que as falas. Isis Valverde imprime muita sinceridade à Maria Lúcia, deixando um pouco mais distante a sombra de sua personagem Suelen. E Felipe Abib capricha na inconstância e insanidade de Jeremias, o Scarface do Planalto Central.
É preciso mencionar também a franqueza do texto, não só quando se trata de palavrões, mas ainda no uso de termos passiveis de serem interpretados como “pesados” em tempos de patrulha do politicamente correto. A discriminação racial sofrida pelo protagonista, por exemplo, aparece aqui Sem Covardia no Palavreado.

No entanto, como toda adaptação cinematográfica, é natural que fãs da obra original reclamem a Não-Similaridade entre um texto e outro. Aqui há algumas omissões que buscam simplificar a narrativa, tornando-a mais fluida e direta: os dois lados da moeda, o romance, o conflito, a resolução, o fim. Embora talvez a maior omissão tenha relação com a personalidade do protagonista.

O João de Renato Russo tem vocação para o crime e parece fazer parte de uma trajetória com destino definido que vai do inferno à absolvição. Mas para o Cinema com protagonista heroico, é necessário adotar uma personalidade que destaque virtudes inconfundíveis. Não há como fazer com que a plateia torça (ou sinta compaixão) por um sujeito com péssimas intenções, ruim de gênio. Sendo assim, o João do filme é uma boa alma que, atraída para circunstâncias que o fazem cometer crimes, torna-se um “fora-da-lei”. No Cinema, o herói nos redime ao encarnar o que há de melhor em nós. 

Seja como for, o tal João de Santo Cristo figura aqui num filme que bebeu a contento das fontes do Western clássico para nos entregar uma história imperfeita, mas empolgante - e destemida, exatamente como seu herói. 

domingo, 20 de janeiro de 2013

A Muralha de Proteção do Sr. Quentin Tarantino


Os diretores de cinema parecem ter atingido o sucesso irrestrito quando conseguem ser reconhecidos e apreciados por um estilo próprio que os diferencie de seus colegas cineastas. Ao adotar uma abordagem temático-estética notadamente original, repetidas vezes, o realizador pode consolidar-se em gêneros como Alfred Hitchcock está para o suspense. Pode ser reconhecido pelo apelo ao gótico como Tim Burton. Às comedias neuróticas e existencialistas como Woody Allen. Às explosões aparentemente injustificadas como er... Michael Bay. Além de tantos outros exemplos.

Em Django Livre (Django Unchained, 2012), o festejado cinquentão Quentin Tarantino pavimenta outra vez o trajeto que lhe caracteriza. Lá está ele derramando alguns barris de sangue falso no colo do espectador, versando longamente em diálogos de câmera sossegada, fisgando nossa atenção para o humor sádico e nos envolvendo nas razões do protagonista única e exclusivamente para saborearmos uma bela cena final de vingança. E a ordem é saborear mesmo. A trama submete os personagens a toda espécie de injúria para que o triunfo da vingança seja realçado entre gargalhadas e gracejos do mais puro contentamento.

Não é por acaso que os dois últimos longas do diretor tenham abordado temas que despertam, sem restrições, a indignação da humanidade: nazismo em Bastardos Inglórios e escravidão neste Django Livre. A identificação da plateia é canalizada facilmente contra inimigos em comum, seja os impiedosos nazistas-genocidas, seja os senhores de escravos tratando gente como bestas sem cérebro. Apesar de recorrer frequentemente ao humor (sádico, pérfido, é bem verdade) que funciona aplainando a crueldade de algumas cenas, em outros momentos, confesso, é comum a sensação de “epa, dessa vez esse cara tá indo longe demais”.

Seja como for, ao insistir na fórmula, Tarantino cria uma espécie de muralha anti-crítica. Se a reclamação partir das extensas tomadas com diálogos que muitas vezes não evoluem a narrativa (lembrar da memorável discussão sobre a virgindade da Madonna em Cães de Aluguel) a resposta é “este é o estilo Tarantino”. Se a crítica surgir do apelo à violência gráfica e aos jorros de sangue (as mutilações em Kill Bill) a resposta é “assim é Quentin Tarantino”. -“Ai, é violento demais!” –“Vá assistir Cameron Crowe!”. E assim por diante.

Django Livre é afetação pura. Mas é delicioso notar que, para além da “assinatura do Tarantino” cada vez menos underground, o apuro técnico vem se tornando cada vez mais preciso. A fotografia em Django corta os chapéus dos personagens e canecas de cerveja com fachos de luz (atenção para a cena de Waltz explicando a lenda de Broonhilda), os super-closes do Sergio Leone estão todos lá, a trilha sonora tem uma música assinada por Ennio Morricone, o som do filme é maravilhoso (repare nos estalidos dos gatilhos) e o figurino apurado acompanhando, por exemplo, a evolução do protagonista Django de escravo a caçador de recompensas.

Finalmente, para quem gosta dos filmes de Tarantino e, por tanto, aceita ser barrado pela tal Muralha de Proteção, o único medo é de que a fórmula se torne engessada ou óbvia demais num futuro próximo. Entre litros de sangue e verborragia, só nos resta aguardar.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O Saga do Herói Tampinha



Pelo menos dois problemas principais pairavam entre as especulações de O Hobbit. Primeiro, a incerteza sobre a direção ser ou não de Peter Jackson, o veterano diretor da trilogia O Senhor dos Anéis. Depois, a desconfiança sobre a decisão aparentemente arbitrária de estender o livro de J. R. R. Tolkien, no qual a produção se baseia, em não meramente um ou dois, mas três filmes.

Pois bem, O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, primeira parte da empreitada, não apenas resgata a poderosa capacidade de imersão da primeira trilogia, como a reinventa. Somos apresentados ao séquito de anões reunidos com a intenção de retomar a sagrada Montanha Solitária, onde se encontra um tesouro de valor imensurável, usurpado do domínio-anão pelo vil dragão Smaug. O prólogo narrado pelo célebre Bilbo Bolseiro precisamente antes dos acontecimentos que marcam a Saga do Um Anel é responsável por nos realocar no familiar Condado, e então de volta sessenta anos antes para compreender a injúria cometida contra o Reino dos Anões.

Aliás, para os desabrigados de O Senhor dos Anéis, a forte Sensação de Familiaridade é a primeira coisa que ancora a atenção em O Hobbit, ao reencontrar personagens como Gandalf, Bilbo, Frodo (!), os Elfos, mais tarde Gollum e até mesmo a memória do Condado. Existem ainda algumas referências cinicamente não-camufladas, como Gandalf incapaz de não bater a cabeça no lustre da casa de Bilbo. Outros elos permanecem intactos, como a altivez dos elfos, a intransigência e bom humor dos Anões, bem como a aparente fragilidade dos Hobbits e o transtorno de dupla personalidade do ótimo Gollum (Serkis, arrebentando de novo).

A atmosfera de tensão sufocante presente em SdA dá espaço aqui a um clima mais leve graças, principalmente, ao Humor Bonachão da missiva de nanicos que a trama acompanha. Se o livro (que não li) é conhecido por ter sido pensado para o público infantil, então não surpreende que Peter Jackson, na condição de fã enlouquecido do Imaginário Tolkien, tenha conservado essa característica no filme. Sendo assim, não dá pra esperar que O Hobbit repita o tom de gravidade e a sensação ameaça pungente das duas torres, com o ódio de Sauron e Saruman, o mar de orcs e outras feras bestiais prestes a reduzir a farelos Frodo e Sam. Aqui há perigo e ameaça, sim. Mas salvaguardados por doses bem distribuídas de gracejos (e algumas canções).

Outro ponto positivo é que os cenários incrivelmente abrangentes ajudam a reforçar o contraste entre a imensidão da jornada e seus perigos diante da pequenez dos oponentes Anões e Hobbit. Não falo necessariamente dos planos abertos mostrando a riqueza natural da Nova Zelândia (principal locação), mas observe, por exemplo, o salão do reino de Thrain, a fenda na montanha dos Orcs com seu líder monstruoso, o pico do penhasco onde os heróis são postos em emboscada. Tudo é fruto de um trabalho minucioso de Design de Produção que chega, outra vez, a surpreender. Jackson continua acertando a mão nas lindas sequências de batalhas, ainda utilizando os rasantes maravilhosos que adotou para os Nazgûl que destroem as Minas Tirith em O Retorno do Rei.

Como era de se esperar, Tomadas Perigosamente Longas como a reunião na sala de jantar de Bilbo (duas canções!), a conferência em Valfenda e o extenso jogo de adivinhações entre Bilbo e Gollum, por mais que funcionem impecavelmente bem e que objetivem reforçar a noção de tempo-real, podem causar estranhamento. Outra fragilidade que vai de encontro mais à história do que à narrativa é o fato de que a solução para momentos de enrascada extrema, sempre vem de uma força maior, protetora e provedora, notadamente conhecida por Gandalf, O Cinzento. Seria uma metáfora cristã para o Assistencialismo Divino que nos submete a provações para testar nossas forças, porém não mais além do que podemos suportar? Considero um tanto quanto frustrante a sensação de que os Anões poderiam ter ido pro saco bem antes, caso não contassem com um Mago fodão na equipe. Outro ponto questionável é que, embora responsável por conferir um frescor ao conhecido universo da Terra Média, a trama não dá conta de explorar a contento a Vasta Quantidade de Personagens Novos. Fiquei curioso pra conhecer melhor, por exemplo, o Mago Castanho, versão pitoresca de São Francisco de Assis.

Dosando as impressões, é possível concluir que Uma Jornada Inesperada entrega o prometido, vai além e ainda sela o início de uma aventura que promete passaportes definitivos ao incrível universo da Terra Média. Chupa, haters. Obrigado, PJ.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Menino Burton e o Cachorro-Frankenstein



Lá vem ele outra vez com todo o seu arsenal gótico, sua coleção de olheiras macabras, seus vultos e sombras. Alguém ainda tem paciência para o Sr. Timothy William Burton? A resposta é um sonoro e levemente desesperado “SIM! ! !” Mas seja como for, pelo menos os fiéis escudeiros Johnny Depp e Helena Bonham Carter ficaram de fora desse Frankenweenie (Frankenweenie, 2012), onde Burton comprou passagens de volta ao começo da carreira, com a milenar técnica de animação em stopmotion e a história do garoto cientista que ressuscita seu cachorro morto.

Frankenweenie ganha fácil dos dois últimos – e fracotes – lançamentos do pai de Edward Mãos de Tesoura. A despeito do incrível sucesso de bilheteria, Alice e Sombras da Noite fizeram o público ter saudade daquele Demoníaco Barbeiro da Rua Fleet (Depp e Carter gracejando nos três). O trunfo do Cachorro-Frankenstein está basicamente na coleção infinita de referências e citações espalhadas ao longo da trama (quem viu os filmes de Boris Karloff, Peter Lorre, Vincent Price, Bela Lugosi e Christopher Lee: segure os orgasmos) e principalmente por ser uma história que fala do amor muito genuíno de uma criança e seu bicho de estimação.

Como sempre ótimo na criação de tipos que transitam entre a fronteira do sinistro e hilário, Burton entrega um filme criativo, agradável e estranhamente novo, mesmo depois de tantas trevas. Particularmente eu tenho curiosidade de vê-lo trabalhar num projeto ensolarado, moderno e insuportavelmente cheio de alegria, só pra ver como fica.

"It's Alive!"

quarta-feira, 1 de agosto de 2012

Qual é a tua, Christopher Nolan?


O trabalho do diretor, roteirista e produtor Christopher Nolan divide opiniões. De um lado, os fãs entusiastas que o arremessam à categoria de gênio inconteste do cinema. De outro, aqueles que enxergam artimanhas manipuladoras em Nolan e defendem que seus filmes não passam de lorota emplumada. Seja como for, longe de prever o prazo de validade dos filmes, cabe a nós o desafio de procurar compreender seu peso agora, no frescor dos lançamentos. Afinal de contas, o que faz do Sr. Nolan um diretor tão festejado?

Levando em consideração os intrépidos ‘blockbusters com cérebro’ – um termo cunhado pelos fãs do realizador – é possível observar uma estrutura comum bastante simples. Na primeira hora somos bombardeados com esse arsenal de informações, respostas, dramas e conflitos que nos fazem ter a sensação de ter tomado três tequilas + chacoalhada na cabeça. É uma espécie de Ilusão de Complexidade que serve pra que a história ganhe substrato e as informações que realmente importam estejam todas ali, camufladas.

O desfecho investe nos set pieces (aquelas cenas bem marcantes) e alguns diálogos expositivos pra deixar as coisas menos obscuras e nos oferecer o confortável Complexo de Sherlock Holmes “Sou demais! Entendi tudo!”. E aí não dá outra: o desfecho impressiona. Se vistos mais de uma vez, no entanto, a maneira afetada com que Nolan apresenta suas tramas pode ser frustrante pela sensação de concha vazia “Poxa, não é tão complexo assim. Na verdade é até bem simples. (...) Pfff, então é só isso?!”.

A despeito disso, uma marca que se tornou característica de Nolan – e que ele adota com sofreguidão quase religiosa na trilogia Batman - é o Apego ao Realismo. Pragmático desde o início da carreira, o diretor procura empregar respostas aos mínimos detalhes, transformando a existência de um homem numa roupa de morcego em algo o mais plausível possível. Assim, o boa-praça Lucius Fox (Freeman) atende a esse propósito explicando todo e qualquer artefato que o vigilante mascarado venha a utilizar (e a gente compra tudo, inclusive com muito amor).

Para ficar em alguns exemplos, a atroz bate-motoca que surge no segundo filme, é um modelo meticulosamente projetado e que funciona de fato. Uma Lamborghini é parcialmente destruída, o Hospital de Gothan (um prédio aleatório) é de fato implodido e aquele caminhão dá mesmo uma cambalhota no meio da rua. Tudo isso, a partir do segundo filme, captado com as poderosas câmeras IMAX, que fornecem uma qualidade muito superior de imagem e som. Essa medida de utilizar o mínimo de computação gráfica visível (aquela mais aparente, como a bate-nave (!) nesse último filme) não é outra coisa senão uma estratégia para conferir mais verdade à narrativa. Funciona.


Essa característica corresponde ao cuidado extremo com a Identidade Visual dos filmes. Para a trilogia do Cavaleiro das Trevas, foram adotadas paletas de cores bastante específicas. Observe a tonalidade amarronzada, quase sépia, que toma conta de Batman Begins. Em Dark Knight, a coloração já é mais azulada. Finalmente em Dark Knight Rises os tons cinzentos estão presentes desde o logo da Warner, abrindo o filme. Isso pode servir a interpretações condizentes à história sim, mas servem para criar um gratificante banquete aos olhos – o que é lindo, não? Somem-se a isto as impressionantes sequências com a arquitetura sinuosa em A Origem ou a icônica imagem do homem-morcego sendo fisgado por aviões em Gothan e temos aí filmes marcantes e visualmente ambiciosos.

Importante também é o criterioso cuidado de Nolan com a Direção de Atores. É claro que contar com uma equipe infernalmente talentosa ajuda bastante. Mas as instruções pontuais do diretor são fundamentais para extrair performances notáveis do elenco. Afinal, é ele quem detém a visão holística do projeto do qual os atores correspondem apenas a uma parte. Dessa forma, os monstruosos diCaprio, Bale, Ledger, Oldman, Caine... podem oferecer o máximo de talento em suas caracterizações.

E a cereja do bolo, bons amigos, é a Trilha Sonora orquestrada por Hans Zimmer. Impactante mas jamais inconveniente, a música de Zimmer valoriza as sequencias, empolga e até diverte. Desde o ‘booooooommmm’ de A Origem com a interessante mixagem de “Non, je ne regrette rien”, até os surtos graves que seguem as traquinagens do homem-morcego.

No começo do mês, Christopher Nolan deixou suas marcas na Calçada da Fama, no famoso Teatro Chinês de Hollywood. Ele agora decidiu abandonar os filmes de herói e voltar sua carreira a projetos originais. Apesar das críticas - algumas contundentes, outras que apenas implicam com o status hype do diretor – ele segue se esforçando para que as marcas não sejam apenas de cimento na Calçada da Fama, mas definitivas na memória do cinema. A gente agradece. 

quinta-feira, 12 de julho de 2012

Os Maiores Vacilos do Novo Aranha

Dá pra fazer um leve exercício de memória e lembrar que nenhum filme do cinema recente dividiu tanto opiniões quanto esse reboot da série Homem-Aranha. Ame-o ou Deixe-o, há quem lance a sentença como teia. Entre mortos e feridos, a empreitada do diretor Marc Webb tem coragem, vontade... mas trupica nos detalhes. Quais as maiores desvantagens e vacilos do novo cabeça-de-teia? 

1) Veio depois da trilogia do Sam Raimi


Sim, amigos. Com um parâmetro de comparação tão violento, o novo Aranha perde a força da novidade e precisa de muito mais esforço para conquistar seu lugar. A trilogia do Sam Raimi (embora a gente ignore solenemente o terceiro filme) é de uma força imensa. Foi um fenômeno sem precedentes na história da telona e tatuou em nossas memórias a figura de Tobey Maguire como Peter Parker - um personagem, até então, sem rosto. Some-se a isso a pouca distância de tempo entre as produções e temos aí a Síndrome do Substituto Indesejado. Imagine um novo Tony Stark que não seja Robert Downey Jr., um Harry Potter que não seja Radcliffe ou um Batman que não pareça Kermit, o Sapo.

2) O sacrifício vão de Ben Parker

Um dos momentos mais íngremes da ópera soturna que é a vida pessoal de Peter Parker, a morte do Tio Ben é o destino arrancando dele, pela segunda vez, seu referencial de figura paterna. A carga de culpa aterradora e o anseio de vingança que nascem no garoto Parker a partir daí são definitivos para que ele se reconheça enquanto herói e vista o manto dos grandes poderes e grandes responsabilidades. No filme de Marc Webb, no entanto, a morte de Ben Parker (Martin Sheen) acontece de maneira gratuita e os efeitos ora devastadores desta perda, são pálidos, quase imperceptíveis. Se isso desperdiça vínculos entre o personagem e a plateia, a relação com a Tia May de Sally Fields não fica muito atrás.

3) Ausência de conflito romântico

Veja só: Gwen Stacy é uma pequena gênia que ama Parker genuinamente e jamais complica a vida do herói sendo utilizada como isca por duendes voadores ou cientistas de tentáculos. Em vez disso ela reúne seus dotes em favor da causa e ajuda pontualmente, em vez de atrapalhar. Ótimo? Não, péssimo. É só lembrar de Mary Jane, o amor platônico de um nerd loser. É uma garota que sofre abusos do pai alcoólatra, é idealista, sonha em ser atriz (mas vira garçonete), descobre amar Parker (mas eventualmente está namorando outro cara) e é alvo dos vilões que querem a cabeça de Spidey numa bandeja de prata. Sentiu a diferença? O cinema bebe na fonte do amor idealizado - que aparecia nas poesias toscamente declamadas e na dor de cotovelo do antigo Pete. 

Pra onde vai a nova jornada?

O Novo Aranha é um filme sobre um adolescente numa fantasia, aos poucos se reconhecendo enquanto herói. Ao vestir-se de Homem-Aranha, Peter Parker continua sendo Peter Parker: franzino, falível, que leva tiro, se machuca gravemente, faz piada, tem espírito de aventura. O Homem-Aranha de Andrew Garfield usa mochila e tira a máscara toda hora... a intenção de aproximar herói e alter-ego fica clara. Só não descamba no conceito do Kick-Ass pela famigerada picada da aranha radioativa. Essa talvez seja a diferença-base em relação aos filmes anteriores. E aí, lá vai: nada de mocinhas gostosas e indefesas gritando por socorro, nada de redator surtado publicando manchetes levianas, nada de entrega de pizza desastrada. Tudo que é caricatura fica pra trás. As cores aqui são mais sóbrias, o tom é mais realista, a violência é mais ameaçadora. Similaridades com o tom empregado por Christopher Nolan no Novo Batman que aqui, infelizmente, não chegam perto do efeito. 

[Esse post é um oferecimento de Apontador Cego, o blog de ilustrações de cinema mais legal que existe :D].

domingo, 18 de março de 2012

Pablo Villaça, Brasília e muito mais Cinema


Estive em Brasília para a 35ª edição do Curso de Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográficas, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, do Cinema em Cena. O curso já percorreu todas as regiões do país, atingindo a notável marca de 1.161 alunos formados até agora. A turma de Brasília, um batalhão de 71 cinéfilos, foi a maior desde 2009, ano em que o curso começou.

E o sucesso é justificável.  A primeira aula já se mostra desafiadora ao partir da premissa de que entrar na sala de cinema é consentir em ser manipulado - mas entender os mecanismos da linguagem cinematográfica é potencializar infinitamente a experiência de assistir a um filme. E é assim que começamos a examinar os inúmeros códigos narrativos adotados pelo cinema para nos fazer sentir emoções tão reais por situações e personagens que não passam de fantasia.  

Se a ementa vai direto ao ponto, impossível não admirar a didática do professor: uma conjugação de bom humor e profundo domínio do conteúdo, que torna as aulas ainda mais interessantes. Há uma preocupação constante em chamar os alunos pelo nome e encorajar até os mais tímidos a dar pitacos na discussão. Sempre exibindo trechos de filmes para ilustrar as explanações, vimos uma cena de Era Uma Vez no Oeste (1968) para entender o conceito de profundidade de campo. Durante a exibição, fomos sabatinados com perguntas sobre as técnicas utilizadas ali. Impossível não aprender.

Na última pauta do curso, fomos apresentados às metodologias particulares de produção textual desenvolvidas por Villaça ao longo de quase vinte anos de carreira. Depois de mapear o caminho das pedras àqueles que pretendem se tornar críticos de cinema (são macetes inclusive de como começar a carreira, sempre utilizando a própria experiência como exemplo), é até engraçado que a fama de ególatra persiga a figura do fundador do Cinema em Cena. Já que uma das características mais detestáveis de pessoas arrogantes é justamente a incapacidade de compartilhar conhecimento.

Naturalmente, não há tempo hábil para debater a quantidade imensa de informação trabalhada nas aulas. Mesmo porque, qualquer assunto relacionado a cinema possibilita horas e horas de discussão. Mas certamente os 71 alunos ali presentes, tiveram o olhar cinematográfico reeducado e o apetite por filmes e por tudo que os envolve, renovado. Recomendação máxima.

A melhor turma de todas, na foto oficial de encerramento

Muito obrigado Bruno Lima e Gabriel Leite (:


sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

STAR WARS!


Uma história sobre homens e seus capacetes de plástico, robôs esquisitões, princesas em penteados questionáveis, cachorros de dois metros de altura pilotando naves espaciais em meio a grunhidos ininteligíveis. O roteiro de Star Wars foi escrito a trancos e barrancos ao longo de mais ou menos dois anos, por um sujeito franzino e recluso chamado George Lucas. Ele vivia numa galáxia extremamente distante, é fato. E apesar de pensar filmes em cifrões, nem ele e nem ninguém jamais imaginou a mina de ouro que a saga seria. No último setembro, 34 anos depois da estreia de Uma Nova Esperança, toda a antologia Star Wars foi lançada no formato do momento, o Blu-ray. Vai vendo.



Na mente de George Lucas, a história funcionava de forma fluida e extraordinária. Narrativa simples pautada no heroísmo contra vilania, personagens carismáticos e acessíveis, finais felizes e muito, muito apelo ao aspecto visual. O problema é que nos anos 1970, quando Hollywood amargava um período de baixa incrível e a tecnologia de efeitos ainda tinha muito a evoluir, realizar as piruetas fantásticas e pirotecnias imaginadas por Lucas era uma missão quase impossível. A equipe de técnicos responsável pelo desenvolvimento dos efeitos visuais teve que criar muitos dos equipamentos e soluções visuais para fazer funcionar, por exemplo, um sobrevôo rasante pela superfície da Estrela da Morte.  


Tanto tempo depois, é fácil imaginar o descrédito com que Star Wars era visto no quando de sua criação. A maioria dos diretores contemporâneos a George Lucas, recém-saídos das universidades, primavam por um cinema mais próximo possível do padrão europeu (Godard, Bergman, Antonioni, Truffaut eram fontes de inspiração para os jovens cineastas) valorizando a essência da linguagem cinematográfica, a sofisticação da narrativa e dos diálogos - e o corte de gastos. Star Wars, fundamentalmente visual, vai na contramão dessa perspectiva, inaugurando o conceito de blockbuster (ou ‘filmes-pipoca’) e elevando à máxima potência o aspecto comercial da época dos grandes estúdios de Hollywood.


Por esse motivo, o legado de George Lucas é frequentemente acusado de desviar a rota de Hollywood nos idos dos anos 1970, criando um novo estilo de cinema, com gastos astronômicos e pontaria nos itens de consumo que vão de miniaturas dos personagens até barras de chocolate com Han Solo em carbonita. O insondável montante de grana fruto do mershandising incentivou a indústria do cinema a priorizar personagens simples e bidimensionais que pudessem ser transformados em brinquedos, em vez de personagens mais complexos. William Friedkin, diretor de O Exorcista, diz ‘O que aconteceu com Star Wars foi o mesmo que quando o McDonald’s se estabeleceu e o gosto por boa comida desapareceu. Agora estamos num período de involução. Tudo está sendo sugado para dentro de um grande redemoinho’.


Uma polêmica sem fim. Talvez o que mais chame atenção é a impressionante atualidade de tudo isso. ‘Cinema-arte’ versus ‘Cinemão’, a constante evolução da tecnologia a serviço do cinema, 3D, Blu-ray, marketing, arte, dinheiro, dinheiro, dinheiro. O fenômeno criado por George Lucas continua a captar novas gerações com suas infinitas ramificações, seja com a Nova Trilogia, seja com LegoStarWars, CloneWars e mais. A discussão transcende Star Wars e seu universo fantástico. De todo modo, em meio ao turbilhão de incertezas sobre os rumos do cinema, há quem consiga, sem grandes traumas, frequentar o McDonald’s num dia e no outro, o Gusteau’s.





Coleções em DVD e agora, em Blu-ray. Juro que parei de gastar com Star Wars.

*Reeditado para o StarWarsDay de 2012.
  E eu voltei a gastar com Star Wars pra ver a volta da nova trilogia ao cinema, em 3D

domingo, 11 de setembro de 2011

Wilfred e outros Animais de Imaginação


Separei uma tarde inteira pra ver a primeira temporada de Wilfred, serie de TV que vai ao ar às quintas-feiras pela FX. O pilot começa com Ryan Newman (Elijah Wood) um típico loser revisando cautelosamente sua carta de despedida, enquanto organiza os últimos detalhes para seu suicídio. Como se não bastasse a vida amorosa em frangalhos e a carreira profissional fracassada, a tentativa de suicídio dá em nada. É nesse momento periclitante da vida, que surgem a vizinha Jenna (Fiona Gubelmann) e seu cachorro, o Wilfred.

Quem já teve ou tem um cachorro sabe o quanto essas criaturas podem ser companheiras. E é mais ou menos essa a premissa da série: escancarar as proporções do velho provérbio que diz ser o cão o melhor amigo do homem. Ryan, num estado de extrema vulnerabilidade, enxerga Wilfred não como um cachorro comum, mas como um amigo que chegou na hora certa. Voilá: um cara vestindo uma fantasia de cachorro.

O princípio é basicamente aquele que rege o relacionamento entre Calvin e Haroldo, dos quadrinhos. Para todos os outros mortais, Haroldo não passa de um tigre de pelúcia qualquer. Mas para Calvin, o Haroldo é muito mais real que qualquer amigo de carne e osso. 


Lembrei que o cinema também já explorou relacionamentos esquizofrênico-imaginativos dessa natureza. Recentemente, em Um Novo Despertar (The Beaver, 2011), Mel Gibson interpretou Walter Black, um sujeito em condições muito parecidas com as de Ryan. Incapaz de manejar a própria vida, ele se vê numa crise de depressão quase irreversível, até encontrar esse fantoche de Castor, que passa a representar toda a sua vitalidade, como uma vida à parte na mão esquerda de Black.


James Stewart também esteve em situação parecida no filme Meu Amigo Harvey (Harvey, 1950). Dando vida a Elwood P. Dowl, uma figura extremamente carismática, cujo melhor amigo, um coelho de dois metros (que só ele conseguia enxergar), o acompanhava pelos bares da cidade em animadas bebericagens – para completo desespero dos familiares que, com toda a razão, passam a desconfiar de sua sanidade.


Em todos os casos, é claro, os ‘animais de imaginação’ podem ser lidos como reflexos da própria personalidade de seus donos. No caso específico de Wilfred somam-se alguns pontos, já que a série quase nunca se preocupa em explicar a natureza da relação dos dois ou em justificar, por exemplo, como Wilfred é capaz de fazer telefonemas ou acessar a internet. Investindo ainda na comicidade do personagem que, sendo cachorro, não resiste a arremessos de bolas, bolhas de sabão e outras particularidades caninas, como o fato de não enxergarem as cores e terem faro e audição aguçados.
 
Nesse bromance mais-que-peculiar, a personalidade dos dois se complementa perfeitamente, como vai ficando claro ao longo dos episódios. É esperar para que as temporadas seguintes consigam manter a medida afinada do humor, sem perder o pedigree.

“qualquer cachorro diria a mesma coisa nessa situação”
 
 
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Turma, fiquei impossibilitado de postar no último mês e meio, mas agora já está tudo bem de novo. Espero que a gente possa continuar discutindo cinema de forma descontraída ao longo de mais e mais listas e textos.  
 
Grande Abraço,
Dave Coelho.

sexta-feira, 22 de julho de 2011

Workshop de Cinema no Festival da Lume


Terminou hoje o Workshop sobre História do Cinema ministrado por Sérgio Alpendre, como parte da programação do I Festival Internacional Lume de Cinema. Em face dos nossos constantes reclames da falta de alternativas para cinéfilos em São Luís, a iniciativa da Lume Filmes nos encheu de orgulho.

Foram quatro aulas divididas em quatro dias, onde o crítico de cinema Sérgio Alpendre (Chip Hazard), versou sobre diversas escolas de cinema, através de trechos de filmes comentados. Apesar do tempo insuficiente para um tema tão abrangente, foi possível discutir aspectos interessantes da filmografia de nomes como David Griffith, Luis Buñuel, King Vidor, Alfred Hitchcock, Roberto Rossellini, Kenji Mizogushi, R. W. Fassbinder e por último o curioso cineasta japonês Yoshishige Yoshida - entre vários outros.
 
 
Alpendre também trabalhou os conceitos de enquadramento, planos, plongé, travellings, profundidade de campo, composições de cena, maneirismos e outras soluções visuais adotadas pelos mestres de acordo com as escolas a que pertenceram. As discussões foram sempre muito bem humoradas, e contaram com as contribuições da turma, ávida por aprendizado. 
 
A gente espera fervorosamente que mais eventos assim aconteçam na ilha. Depois de tanta conversa sobre cinema, Sergio Alpendre nos deixou morrendo de vontade de ver uma pilha de filmes. Fiz uma lista de 'Quero Ver', que divido agora com os senhores. Quem perdeu, dançou.

- Raros Sonhos Flutuantes (Eizo Sugawa, 1990)

- O Nascimento de Uma Nação (David Griffith, 1915)

- Intolerância (David Griffith, 1916)

- O Grande Desfile (King Vidor, 1925)

- Coragem e Confissão (Alfred Hitchcock, 1929)

- O Marido Era o Culpado (Alfred Hitchcock, 1936)

- Alemanha Ano Zero (Roberto Rossellini, 1947)

- Sob o Signo de Capricórnio (Alfred Hitchcock, 1949)

- Stromboli (Roberto Rossellini, 1950)

- O Intendente Sancho (Kenji Mizogushi, 1954)

- Sede de Viver (Vincent Minnelli, 1956)

- Roleta Chinesa (R. W. Fassbinder, 1976)

O I Festival Internacional Lume Filmes termina amanhã. Que venha o próximo (:

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Carros 2: O Excelente Filme Ruim da Pixar


Conversando com o amigo Gabriel Leite em meados de 2010, ainda atônitos com o sucesso de Toy Story 3, chegamos à conclusão de que depois de tantos êxitos em série, a Pixar bem que podia se dar ao luxo de cometer falhas dali  em diante. A brincadeira ganhou tons de profecia, já que ‘Carros 2' (Cars 2, 2011) cruelmente rejeita a teoria da infalibilidade do estúdio de John Lasseter.

A pegada da Pixar sempre foi atribuir características humanas a personagens dos ambientes mais adversos e, através disso, provocar elos de identificação com a platéia, transmitindo lições de altruísmo e camaradagem. Em 2006, quando decidiram criar um universo paralelo dominado não por monstros, formigas, peixes ou brinquedos, mas por carros (!) a crítica especializada se dividiu. Seria um desafio conferir expressividade a máquinas, personagens não-orgânicos, pouco maleáveis, que traziam em vez de mãos, rodas de liga leve e em vez de olhos, para-brisas.

Os resultados não foram de todo satisfatórios. O Oscar daquele ano, por exemplo, foi para os pinguins de ‘Happy Feet’ e até o curta-metragem ‘Quase Abduzido’, ficou de fora da premiação. A despeito disso, ‘Carros’ se transformou no projeto mais comercial da Pixar, ao dar possibilidade à criação de uma infindável linha de produtos com os colecionáveis Relâmpago McQueen e Mate.
 

Este descrédito é o principal motivo pelo qual o projeto de ‘Carros 2’ foi visto com desconfiança. A premissa do filme de 2006, feita com base na ideia que John Lasseter teve numa viagem de carro com a família, era a de um carro de corrida cego pela fama, que em determinada circunstância se vê forçado a reavaliar alguns conceitos.

Mate, o carro-guincho caipira, coadjuvante no primeiro filme, foi aqui alçado à condição de protagonista, enquanto a estrela das corridas Relâmpago McQueen, assumiu o posto de coadjuvante. Essa troca define uma brusca mudança de tom na narrativa: as então genuínas crises pessoais de McQueen, antes intercaladas pelo alívio cômico do carro-guincho, agora ficam de fundo para as trapalhadas-pastelão de Mate – que aqui não soam mais tão espontâneas e engraçadas.
 

O problema é que nem se trata de uma mera animação engraçadona. O pano de fundo disso é uma aparentemente intrincada trama de espionagem ao melhor estilo James Bond. O carro novato, Flynn McMíssil é nada menos que a carronificação (!) do agente 007. Assim, enquanto McQueen se mete num desafio internacional de corrida, Mate é confundido com um espião profissional – algo tão improvável quanto Mr. Bean sendo agente secreto.

Então apesar do impecável design de produção – especialmente nas ‘locações’ internacionais, cujos cenários foram redesenhados para atender à lógica desse universo automobilístico – e da criatividade nos modelos de carros antropomorfizados, a trama soa boba como uma desculpa esfarrapada de continuação. A Pixar, com seu rigor técnico e narrativo, nos tornou exigentes demais.

quarta-feira, 4 de maio de 2011

AUDREY HEPBIRTHDAY :)



Hoje, dia 4 de maio, é dia de Audrey Hepburn. Eu lembro que meus primeiros contatos com ela foram puramente profissionais: a atriz e o espectador. Sua beleza transbordava nas cenas de ‘Sabrina’, enquanto Humphrey Bogart e William Holden disputavam o amor da personagem. Teria sido difícil não se encantar com a graça da ‘Bonequinha de Luxo’. Ou com a opulência radiante em ‘My Fair Lady’. Nem mesmo Cary Grant resistiu a seu charme no thriller ‘Charada’. E quem diria que até Fred Astaire seria seduzido pelos passos de dança de Audrey em ‘Cinderela em Paris’.


Mas talvez sua imagem de mulher transplante a de atriz. Quando lembro dela, o que me vem à mente é, antes de seu inquestionável talento e de sua trajetória, a sua beleza e delicadeza de mulher. Audrey remete à graça e a simplicidade do ser feminino, do ser humano.

Lamento não ter tido a oportunidade de, numa sala de cinema, apreciar o talento e a graça de Hepburn juntos e em grandes proporções. Mas é reconfortante saber que seu legado segue eternizado, além de qualquer frame.


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Reedição do texto postado originalmente em 04 de maio de 2008, no meu antigo blog.

segunda-feira, 4 de abril de 2011

Listão: 30 Super Títulos de Filmes

Eles são como cartões de visita. Bons títulos são convidativos e chamam atenção para o filme. Por isso preparamos aqui uma lista de 30 exemplos de títulos curiosos do cinema mundo a fora (inclusive alguns brazucas). No geral, a prioridade é a versão em PT-Br, mas como as versões de títulos estrangeiros em português geralmente levantam muita discussão, do ladinho, entre parênteses, está o título original. Assim você pode dar seu pitaco: melhor a versão em PT ou a versão de fábrica? Vamo lá :)

1.   Dona Flor e Seus Dois Maridos (1976)
2.    Deus e o Diabo na Terra do Sol (1964)
3.    O Dragão da Maldade Contra o Santo Guerreiro (1969)
4.    Antes que o Diabo Saiba Que Você Está Morto (Before the Devil Knows You're Dead, 2007)
5.    Como Era Verde Meu Vale (How Green Was My Valley, 1941)
6.    O Cozinheiro, O Ladrão, Sua Mulher e o Amante (The Cook the Thief His Wife & Her Lover, 1989)
7.    Cupido É Moleque Teimoso (Awful Truth, The, 1937)
8.    Festim Diabólico (Rope, 1948)
9.    Faster Pussycat! Kill! Kill! (1965)
10.    O Homem Que Virou Suco (1981)
11.    A Montanha dos Sete Abutres (Ace in the Hole, 1951)
12.    O Que Terá Acontecido a Baby Jane? (What Ever Happened to Baby Jane?, 1962)
13.    Mulheres a Beira de Um Ataque de Nervos (Mujeres al borde de un ataque de nervios, 1988)
14.    Piquenique na Montanha Misteriosa (Picnic at Hanging Rock, 1975)
15.    Traga-me a Cabeça de Alfredo Garcia (Bring Me the Head of Alfredo Garcia, 1974)
16.    A Mãe e a Puta (Maman et la Putain, La, 1973)
17.    As Lágrimas Amargas de Petra Von Kant (Bitteren Tränen der Petra von Kant, Die, 1972)
18.    O Pássaro das Plumas de Cristal (Uccello dalle piume di cristallo, L', 1970)
19.    O Incrível Exército de Brancaleone (Armata Brancaleone, L', 1966)
20.    Meu Ódio Será Sua Herança (The Wild Bunch, 1969)
21.    Matou a Família e Foi ao Cinema (1969)
22.    Os Sete Gatinhos (1980)
23.    Contos Proibidos do Marquês de Sade (Quills, 2000)
24.    O Pecado Mora ao Lado (Seven Year Itch, The, 1955)
25.    Onde Começa o Inferno (Rio Bravo, 1959)
26.    Doce Pássaro da Juventude (Sweet Bird of Youth, 1962)
27.    O Mercador de Almas (Long, Hot Summer, The, 1958)
 28.    As Aventuras do Barão Munchausen (Adventures of Baron Munchausen, The, 1988)
 29.    A Rosa Púrpura do Cairo (Purple Rose of Cairo, The, 1985)
30.     Tudo o que Você Sempre Quis Saber Sobre Sexo (Mas Tinha Medo de Perguntar) (Everything You Always Wanted to Know About Sex, But Were Afraid to Ask,  1972)

E aí? Você também tem títulos preferidos? Conta mais! ;)