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quarta-feira, 12 de junho de 2013

TOP5 – Maratona dos Apaixonados

A cena é conhecida de todos nós: geralmente nos últimos momentos do filme, o personagem apaixonado resolve deixar tudo para trás e parte em desabalada carreira rumo aos braços do amor verdadeiro. Já que na vida real cenas assim são bem raras, vamos a cinco personagens maratonistas do amor - e donos de um surpreendente preparo físico. Atenção: dependendo do seu grau de exigência, este post pode conter spoilers.

5 - O Amor Não Tira Férias (The Holiday, 2006)


-Quem corre? –Amanda Woods (Diaz)

-A troco de que? –Entregar-se aos braços de seu amado, Graham (Law)

Apesar do título calhorda, este belo chick-flick assinado pela competente Nancy Meyers é de lavar a alma. São duas histórias em uma e o trânsito equilibrado entre elas, define o ritmo do filme. Em linhas brutais: o eixo Cameron Diaz/Jude Law corresponde ao senso comum das comédias românticas modernas e o eixo Kate Winslet/Jack Black percorre um caminho mais ousado e menos comum. É assim que, depois de superar uma cascata de empecilhos, a personagem de Cameron Diaz corre, trupicando na neve, para se jogar nos braços do (na época menos careca) Jude Law. 

4 - Manhattan (Manhattan, 1979)


-Quem corre? –Isaac Davis (Allen)

-A troco de quê? –Impedir que sua adorada Tracy (Hemingway) parta para Londres!

Maravilha visual de Woody Allen que, em parceria com o mestre da fotografia Gordon Willis (o mesmo de “O Poderoso Chefão”), deixou Manhattan ainda mais linda em preto e branco. A história gira em torno da paixão entre Isaac Davis (Allen), de 42 anos e Tracy (Mariel Hemingway), de 17. A disparidade nas idades do casal deixa Davis inseguro e o leva a se envolver com Mary Wilkie (Diane Keaton). Quando ele finalmente se permite ouvir seu coração, nada segura sua resfolegante carreira rumo aos braços de sua amada, que estava de malas prontas pra Londres. Corre, Woody!

3 - Corra Lola, Corra (Lola Rennt, 1998)


-Quem corre? –Lola (Potente)
-A troco de quê? –Recuperar a grana perdida por Manni (Bleibtreu), o namorado vacilão

Provavelmente a maratonista mais dedicada da lista, a obstinada Lola (Franka Potente) precisou correr contra o tempo para salvar a pele do namorado Manni (Moritz Bleibtreu). O sujeito portava uma imensa quantidade de dinheiro que devia ser entregue ao chefe da quadrilha de bandidos à qual ele pertencia, mas acaba perdendo a bolsa cheia de grana no trem. Lola dá início a uma correria desenfreada para recuperar o dinheiro num espaço de vinte minutos (roubar um banco? pedir emprestado?), resgatando o namorado do pagamento mais caro de todos: sua vida. O filme ficou famoso pela montagem ensandecida que lança mão de vários recursos visuais, contando a mesma história por três vezes, de perspectivas e resoluções diferentes.

2 - Harry & Sally – Feitos Um Para o Outro (When Harry Met Sally..., 1989)


-Quem corre? –Harry Burns (Crystal)

-A troco de quê? –Recuperar o amor de Sally Albright (Ryan) em pleno Réveillon.

‘Men and women can't be friends because the sex part always gets in the way’. Injustamente estigmatizado pela cena em que Meg Ryan simula um orgasmo em plena lanchonete, o filme de Rob Reiner é um marco do gênero, ao melhor estilo guerra dos sexos. O trunfo aqui é mesmo a verborragia esperta e neurótica dos diálogos escritos por Nora Ephron (gênia). Mas há ainda um bom bocado de piadas visuais, a música de Ella Fitzgerald e Louis Armstrong, as paisagens de Nova York - ingredientes que tornam a mistura tão charmosa e especial. A história, que se passa em 11 anos de idas e vindas, é intercalada por depoimentos reais de casos de amor que deram certo. Difícil resistir a reprises e mais reprises e à cena final, com Harry (Crystal) correndo desesperadamente para encontrar a desconsolada Sally (Ryan) em plena noite de Réveillon. 

1 - A Primeira Noite de Um Homem (The Graduate, 1967)


-Quem corre? – Benjamin Braddock (Hoffman)

-A troco de quê? –Resgatar a bela Elaine Robinson (Ross) do altar

Clássico definitivo de Mike Nichols (“Closer – Perto Demais”), “A Primeira Noite de Um Homem” traz um Dustin Hoffman um pouco velho demais para o papel de Benjamin Braddock, um garoto recém-formado que retorna pra casa depois dos anos de universidade. Ele não esperava que a amiga da família, a famosa Mrs. Robinson (Anne Bancroft) fosse dar margem para a icônica indagação “Are you trying to seduce me?” e muito menos que ele iria se envolver com sua linda filha, Elaine Robinson (Katharine Ross). Aturdido por uma série de impasses, Ben Braddock (esse nome é mesmo ótimo) é compelido a correr léguas e léguas em busca do amor de sua Elaine. 

***

E aí, você também já correu atrás do prejuízo? 


Obs.: "Maratona dos Apaixonados" foi originalmente postado no Jornal Pequeno. Este é um repost. Todos os direitos reservados, bicho.

Até mais! ;)

sexta-feira, 31 de maio de 2013

João e o Faroeste do Planalto


Seguindo a esteira de filmes que circundam a obra de Renato Russo, icônico líder da banda Legião Urbana “Faroeste Caboclo” (do estreante René Sampaio, 2013) surge no vácuo deixado pelo recém-lançado “Somos Tão Jovens” (2013). Com base na enorme música homônima (aquela que você decorou de ponta a ponta), o roteiro de Victor Atherino e Marcos Bernstein se dedica a desenvolver a trajetória tortuosa do tal João, natural de Santo Cristo, Bahia. E acerta.

Chamando atenção já nos primeiros quadros pela Direção de Arte assinada por Tiago Marques Teixeira, o mesmo de “Ensaio Sobre a Cegueira” (2008), que explora a aridez do sertão baiano com cuidadosa atenção aos figurinos. Repare que as cores adotadas ali praticamente se confundem com a dos cenários, transmitindo bem a percepção desértica do lugar. Vários outros detalhes dão conta de ajustar a distância temporal do filme: observe a árvore de natal na casa do primo Pablo (Troncoso), os carpetes, as cortinas, os cabelos. A cadeira fabricada pelo carpinteiro João é vista de forma discreta num momento posterior da trama, já envernizada e fazendo parte da mobília.

Outro ponto positivo são as boas Transições de Cena que servem não meramente como elipses (o João criança joga um balde no poço que é puxado pelo mesmo João, já adulto), mas também como reforços charmosos à narrativa (o som de uma porta fechada com força é ouvido na cena seguinte, com João obstinado batendo com um maço de dinheiro sobre a mesa). Além do quase split-screen que mostra uma externa do apartamento onde é possível ver o casal protagonista transando por uma janela e na janela ao lado, o pai de Maria Lúcia (Marcos Paulo) lê um jornal completamente inconsciente do que acontece na própria casa.

Aliás, a Direção de Atores (antes, o casting) bem trabalhada intensifica o potencial dramático do filme. Os olhos de Fabrício Boliveira (o João) frequentemente dizem muito mais que as falas. Isis Valverde imprime muita sinceridade à Maria Lúcia, deixando um pouco mais distante a sombra de sua personagem Suelen. E Felipe Abib capricha na inconstância e insanidade de Jeremias, o Scarface do Planalto Central.
É preciso mencionar também a franqueza do texto, não só quando se trata de palavrões, mas ainda no uso de termos passiveis de serem interpretados como “pesados” em tempos de patrulha do politicamente correto. A discriminação racial sofrida pelo protagonista, por exemplo, aparece aqui Sem Covardia no Palavreado.

No entanto, como toda adaptação cinematográfica, é natural que fãs da obra original reclamem a Não-Similaridade entre um texto e outro. Aqui há algumas omissões que buscam simplificar a narrativa, tornando-a mais fluida e direta: os dois lados da moeda, o romance, o conflito, a resolução, o fim. Embora talvez a maior omissão tenha relação com a personalidade do protagonista.

O João de Renato Russo tem vocação para o crime e parece fazer parte de uma trajetória com destino definido que vai do inferno à absolvição. Mas para o Cinema com protagonista heroico, é necessário adotar uma personalidade que destaque virtudes inconfundíveis. Não há como fazer com que a plateia torça (ou sinta compaixão) por um sujeito com péssimas intenções, ruim de gênio. Sendo assim, o João do filme é uma boa alma que, atraída para circunstâncias que o fazem cometer crimes, torna-se um “fora-da-lei”. No Cinema, o herói nos redime ao encarnar o que há de melhor em nós. 

Seja como for, o tal João de Santo Cristo figura aqui num filme que bebeu a contento das fontes do Western clássico para nos entregar uma história imperfeita, mas empolgante - e destemida, exatamente como seu herói. 

domingo, 20 de janeiro de 2013

A Muralha de Proteção do Sr. Quentin Tarantino


Os diretores de cinema parecem ter atingido o sucesso irrestrito quando conseguem ser reconhecidos e apreciados por um estilo próprio que os diferencie de seus colegas cineastas. Ao adotar uma abordagem temático-estética notadamente original, repetidas vezes, o realizador pode consolidar-se em gêneros como Alfred Hitchcock está para o suspense. Pode ser reconhecido pelo apelo ao gótico como Tim Burton. Às comedias neuróticas e existencialistas como Woody Allen. Às explosões aparentemente injustificadas como er... Michael Bay. Além de tantos outros exemplos.

Em Django Livre (Django Unchained, 2012), o festejado cinquentão Quentin Tarantino pavimenta outra vez o trajeto que lhe caracteriza. Lá está ele derramando alguns barris de sangue falso no colo do espectador, versando longamente em diálogos de câmera sossegada, fisgando nossa atenção para o humor sádico e nos envolvendo nas razões do protagonista única e exclusivamente para saborearmos uma bela cena final de vingança. E a ordem é saborear mesmo. A trama submete os personagens a toda espécie de injúria para que o triunfo da vingança seja realçado entre gargalhadas e gracejos do mais puro contentamento.

Não é por acaso que os dois últimos longas do diretor tenham abordado temas que despertam, sem restrições, a indignação da humanidade: nazismo em Bastardos Inglórios e escravidão neste Django Livre. A identificação da plateia é canalizada facilmente contra inimigos em comum, seja os impiedosos nazistas-genocidas, seja os senhores de escravos tratando gente como bestas sem cérebro. Apesar de recorrer frequentemente ao humor (sádico, pérfido, é bem verdade) que funciona aplainando a crueldade de algumas cenas, em outros momentos, confesso, é comum a sensação de “epa, dessa vez esse cara tá indo longe demais”.

Seja como for, ao insistir na fórmula, Tarantino cria uma espécie de muralha anti-crítica. Se a reclamação partir das extensas tomadas com diálogos que muitas vezes não evoluem a narrativa (lembrar da memorável discussão sobre a virgindade da Madonna em Cães de Aluguel) a resposta é “este é o estilo Tarantino”. Se a crítica surgir do apelo à violência gráfica e aos jorros de sangue (as mutilações em Kill Bill) a resposta é “assim é Quentin Tarantino”. -“Ai, é violento demais!” –“Vá assistir Cameron Crowe!”. E assim por diante.

Django Livre é afetação pura. Mas é delicioso notar que, para além da “assinatura do Tarantino” cada vez menos underground, o apuro técnico vem se tornando cada vez mais preciso. A fotografia em Django corta os chapéus dos personagens e canecas de cerveja com fachos de luz (atenção para a cena de Waltz explicando a lenda de Broonhilda), os super-closes do Sergio Leone estão todos lá, a trilha sonora tem uma música assinada por Ennio Morricone, o som do filme é maravilhoso (repare nos estalidos dos gatilhos) e o figurino apurado acompanhando, por exemplo, a evolução do protagonista Django de escravo a caçador de recompensas.

Finalmente, para quem gosta dos filmes de Tarantino e, por tanto, aceita ser barrado pela tal Muralha de Proteção, o único medo é de que a fórmula se torne engessada ou óbvia demais num futuro próximo. Entre litros de sangue e verborragia, só nos resta aguardar.

sexta-feira, 14 de dezembro de 2012

O Saga do Herói Tampinha



Pelo menos dois problemas principais pairavam entre as especulações de O Hobbit. Primeiro, a incerteza sobre a direção ser ou não de Peter Jackson, o veterano diretor da trilogia O Senhor dos Anéis. Depois, a desconfiança sobre a decisão aparentemente arbitrária de estender o livro de J. R. R. Tolkien, no qual a produção se baseia, em não meramente um ou dois, mas três filmes.

Pois bem, O Hobbit: Uma Jornada Inesperada, primeira parte da empreitada, não apenas resgata a poderosa capacidade de imersão da primeira trilogia, como a reinventa. Somos apresentados ao séquito de anões reunidos com a intenção de retomar a sagrada Montanha Solitária, onde se encontra um tesouro de valor imensurável, usurpado do domínio-anão pelo vil dragão Smaug. O prólogo narrado pelo célebre Bilbo Bolseiro precisamente antes dos acontecimentos que marcam a Saga do Um Anel é responsável por nos realocar no familiar Condado, e então de volta sessenta anos antes para compreender a injúria cometida contra o Reino dos Anões.

Aliás, para os desabrigados de O Senhor dos Anéis, a forte Sensação de Familiaridade é a primeira coisa que ancora a atenção em O Hobbit, ao reencontrar personagens como Gandalf, Bilbo, Frodo (!), os Elfos, mais tarde Gollum e até mesmo a memória do Condado. Existem ainda algumas referências cinicamente não-camufladas, como Gandalf incapaz de não bater a cabeça no lustre da casa de Bilbo. Outros elos permanecem intactos, como a altivez dos elfos, a intransigência e bom humor dos Anões, bem como a aparente fragilidade dos Hobbits e o transtorno de dupla personalidade do ótimo Gollum (Serkis, arrebentando de novo).

A atmosfera de tensão sufocante presente em SdA dá espaço aqui a um clima mais leve graças, principalmente, ao Humor Bonachão da missiva de nanicos que a trama acompanha. Se o livro (que não li) é conhecido por ter sido pensado para o público infantil, então não surpreende que Peter Jackson, na condição de fã enlouquecido do Imaginário Tolkien, tenha conservado essa característica no filme. Sendo assim, não dá pra esperar que O Hobbit repita o tom de gravidade e a sensação ameaça pungente das duas torres, com o ódio de Sauron e Saruman, o mar de orcs e outras feras bestiais prestes a reduzir a farelos Frodo e Sam. Aqui há perigo e ameaça, sim. Mas salvaguardados por doses bem distribuídas de gracejos (e algumas canções).

Outro ponto positivo é que os cenários incrivelmente abrangentes ajudam a reforçar o contraste entre a imensidão da jornada e seus perigos diante da pequenez dos oponentes Anões e Hobbit. Não falo necessariamente dos planos abertos mostrando a riqueza natural da Nova Zelândia (principal locação), mas observe, por exemplo, o salão do reino de Thrain, a fenda na montanha dos Orcs com seu líder monstruoso, o pico do penhasco onde os heróis são postos em emboscada. Tudo é fruto de um trabalho minucioso de Design de Produção que chega, outra vez, a surpreender. Jackson continua acertando a mão nas lindas sequências de batalhas, ainda utilizando os rasantes maravilhosos que adotou para os Nazgûl que destroem as Minas Tirith em O Retorno do Rei.

Como era de se esperar, Tomadas Perigosamente Longas como a reunião na sala de jantar de Bilbo (duas canções!), a conferência em Valfenda e o extenso jogo de adivinhações entre Bilbo e Gollum, por mais que funcionem impecavelmente bem e que objetivem reforçar a noção de tempo-real, podem causar estranhamento. Outra fragilidade que vai de encontro mais à história do que à narrativa é o fato de que a solução para momentos de enrascada extrema, sempre vem de uma força maior, protetora e provedora, notadamente conhecida por Gandalf, O Cinzento. Seria uma metáfora cristã para o Assistencialismo Divino que nos submete a provações para testar nossas forças, porém não mais além do que podemos suportar? Considero um tanto quanto frustrante a sensação de que os Anões poderiam ter ido pro saco bem antes, caso não contassem com um Mago fodão na equipe. Outro ponto questionável é que, embora responsável por conferir um frescor ao conhecido universo da Terra Média, a trama não dá conta de explorar a contento a Vasta Quantidade de Personagens Novos. Fiquei curioso pra conhecer melhor, por exemplo, o Mago Castanho, versão pitoresca de São Francisco de Assis.

Dosando as impressões, é possível concluir que Uma Jornada Inesperada entrega o prometido, vai além e ainda sela o início de uma aventura que promete passaportes definitivos ao incrível universo da Terra Média. Chupa, haters. Obrigado, PJ.

segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Ruby Sparks encontra o Jovem Woody Allen



A sombra do primeiro sucesso pode ser esmagadora para um artista. É assim a vida do escritor prodígio Calvin Weir-Fields (Paul Dano), que escreveu um best-seller aos 19 anos e passou a ser tido como um gênio (“Não use essa palavra”, ele repete) desde então. Mas dez anos depois, diante das cobranças para um novo romance, ele só consegue se ver afogado num imenso mar de folhas brancas, sem ideia alguma.

Recorrendo às recomendações de seu analista e aos conselhos predadores do irmão mais velho, o bloqueio criativo de Calvin só é interrompido quando ele sonha com essa garota angelical, de cabelos inacreditavelmente vermelhos, puro mistério. A musa inspiradora é a tal da ‘faísca ruiva’ (daí o título ‘Ruby Sparks’) que faltava pra que um novo livro começasse a ser escrito. O detalhe é que algumas páginas depois, Ruby Sparks (Zoe Kazan, que também assina o roteiro) aparece em carne, osso e roupas de baixo na casa do Calvin, preparando o café da manhã.

Esse é o plot do novo filme da dupla de diretores que nos trouxe ‘Pequena Miss Sunshine’, Jonathan Dayton e Valerie Faris. Mas aqui a namorada ideal não é fruto de uma mente esquizofrênica, como foi o caso do personagem parcialmente maníaco de Selton Mello em ‘A Mulher Invisível’. Ela também não é uma boneca-para-fins-recreativos, como a namorada de Ryan Gosling em ‘A Garota Ideal’. E o principal: ela não é consciente da sua condição de personagem, como o Will Ferrell em ‘Mais Estranho que a Ficção’.

Sendo assim, qualquer alteração que o afortunado Calvin Weir-Fields decida fazer em seu texto, reflete diretamente no comportamento de Ruby. Algo que leva o protagonista a uma desgastante crise de valores éticos. Alterar a personalidade de Ruby é brincar de Deus, ele poderia pensar. Até onde sua namorada deixa de agir espontaneamente pra ser um mero fantoche guiado pelas teclas de uma máquina de escrever?

Tecnicamente cuidadoso, o design de produção investe num interessante contraste dos personagens com o cenário principal do filme, a casa do jovem romancista. Uma versão do Woody Allen com 29 anos, recluso e retraído, sempre usando roupas de tons claros, Calvin quase desaparece pelas paredes brancas da casa super-monocromática. Já Ruby é sempre cor viva (vermelho e roxo, principalmente) remetendo ao caráter vivaz e inspirador da personagem. As participações de Annette Bening e Antonio Banderas como os excêntricos pais do protagonista, também ajudam a engrossar o caldo com bons personagens e situações.

Notei que depois que a primeira complicação é resolvida (entender a natureza de Ruby e se convencer de que “não, eu não estou ficando louco”) o ritmo da narrativa sofre uma leve desacelerada até pegar o embalo outra vez. Mas Ruby Sparks continua sendo uma história romântica, criativa e sem grandes pretensões sobre a matemática incrivelmente complexa dos relacionamentos amorosos, nossa necessidade de ser notado e as diferenças definitivas entre os dois lados da moeda.


Ruby Sparks - A Namorada Perfeita (Ruby Sparks, 2012)

Direção: Jonathan Dayton, Valerie Faris

Elenco: Zoe Kazan, Paul Dano, Chris Messina, Antonio Banderas, Annette Bening, Steve Coogan, Deborah Ann Woll


quinta-feira, 19 de julho de 2012

Valente: A Princesa da Pixar [Parte 1]

Olá, amigos. Resolvi dividir esse texto em duas partes [SEM SPOILERS]: a primeira pra falar sobre o filme em si e a segunda, só pra explorar aqueles famosos detalhes caprichados que são a cara da Pixar. Vamo nessa!

Parte 1: O filme


Através da obstinação da princesa Merida em fazer seu próprio destino, a trama de Valente (Brave, 2012) se esquiva a todo custo da tônica romântica e maniqueísta que circundou a maioria todas as princesas do estúdio do velho Walt. E aí o enigma se resolve: depois de Woody, Buzz, Wall-E e Carl Fredricksen, a primeira protagonista da Pixar tinha mesmo que ser uma princesa.

Longe da imensa lista de responsabilidades previamente impostas às mulheres, Merida parece orgulhosa dos cabelos ruivos que ela mantém rigorosamente desalinhados. Os cachos de fogo vão de encontro à vivacidade gasta nos passeios com o cavalo Angus ou na admirável habilidade com arco e flecha. Mas em ‘Valente’ o casamento é ferramenta de diplomacia. Em nome da honra de toda uma dinastia e a fim de assegurar a paz no reino, a mãe da protagonista, Elinor, é uma metralhadora de regras que pretendem conduzir Merida ao matrimônio. E é o conflito entre as duas que rege o tom da trama.


A despeito da aparente sisudez da rainha, a dinâmica familiar é pura comédia. O ‘humor trapalhão’ adotado aqui conta como recurso a favor tanto de desviar a expectativa de romance que vem pré-acionada numa ‘história de princesa’, como de aliviar a tensão crescente entre mãe e filha. E a forma como os homens são retratados nessa produção assumidamente feminista, não deixa de ser curiosa: sempre munidos de força bruta e dispostos a abrir mão de qualquer conversa para resolver tudo na base dos socos e pontapés.

Assim, o rei Fergus é um guerreiro nato que derrotou ursos ferozes, mas é incapaz coordenar o reino ou de por ordem à própria mesa - também por conta dos adoráveis trigêmeos acrobatas. Os pretendentes de Merida, assessorados por seus pais, também rendem boas risadas. São os clãs MacGuffin, Dingwall e Macintosh - este último faz referência aos primeiros computadores concebidos por Steve Jobs, um dos mais importantes acionistas da Pixar, a quem o filme é dedicado.


‘Valente’ se torna interessante ainda ao remodelar outro aspecto caro às histórias de princesa: o elemento fantasioso, geralmente concentrado na figura de um feiticeiro ou bruxa. Recusando o usual maniqueísmo, aqui a bruxa funciona como uma espécie de gênio da lâmpada ou curinga - e as chamas azuis que sinistramente convidam a protagonista a adentrar na floresta escura de alguma forma remetem à mística dos filmes do estúdio Ghibli.

Aí sobra espaço para o que realmente importa nessa história: há uma cena extremamente representativa em que Merida, a fim de manusear melhor seu arco, solta os cabelos presos pela mãe e rasga o belo vestido com a qual fora apresentada a seus pretendentes. Não há simbolismo mais contundente que a recusa desses adornos femininos, a negação do casamento arranjado, a obstinação cega e o desejo de escrever a própria sorte. 

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domingo, 18 de março de 2012

Pablo Villaça, Brasília e muito mais Cinema


Estive em Brasília para a 35ª edição do Curso de Teoria, Linguagem e Crítica Cinematográficas, ministrado pelo crítico de cinema Pablo Villaça, do Cinema em Cena. O curso já percorreu todas as regiões do país, atingindo a notável marca de 1.161 alunos formados até agora. A turma de Brasília, um batalhão de 71 cinéfilos, foi a maior desde 2009, ano em que o curso começou.

E o sucesso é justificável.  A primeira aula já se mostra desafiadora ao partir da premissa de que entrar na sala de cinema é consentir em ser manipulado - mas entender os mecanismos da linguagem cinematográfica é potencializar infinitamente a experiência de assistir a um filme. E é assim que começamos a examinar os inúmeros códigos narrativos adotados pelo cinema para nos fazer sentir emoções tão reais por situações e personagens que não passam de fantasia.  

Se a ementa vai direto ao ponto, impossível não admirar a didática do professor: uma conjugação de bom humor e profundo domínio do conteúdo, que torna as aulas ainda mais interessantes. Há uma preocupação constante em chamar os alunos pelo nome e encorajar até os mais tímidos a dar pitacos na discussão. Sempre exibindo trechos de filmes para ilustrar as explanações, vimos uma cena de Era Uma Vez no Oeste (1968) para entender o conceito de profundidade de campo. Durante a exibição, fomos sabatinados com perguntas sobre as técnicas utilizadas ali. Impossível não aprender.

Na última pauta do curso, fomos apresentados às metodologias particulares de produção textual desenvolvidas por Villaça ao longo de quase vinte anos de carreira. Depois de mapear o caminho das pedras àqueles que pretendem se tornar críticos de cinema (são macetes inclusive de como começar a carreira, sempre utilizando a própria experiência como exemplo), é até engraçado que a fama de ególatra persiga a figura do fundador do Cinema em Cena. Já que uma das características mais detestáveis de pessoas arrogantes é justamente a incapacidade de compartilhar conhecimento.

Naturalmente, não há tempo hábil para debater a quantidade imensa de informação trabalhada nas aulas. Mesmo porque, qualquer assunto relacionado a cinema possibilita horas e horas de discussão. Mas certamente os 71 alunos ali presentes, tiveram o olhar cinematográfico reeducado e o apetite por filmes e por tudo que os envolve, renovado. Recomendação máxima.

A melhor turma de todas, na foto oficial de encerramento

Muito obrigado Bruno Lima e Gabriel Leite (:


quarta-feira, 25 de janeiro de 2012

Nostalgia Precoce e Alta Definição



Para quem já fazia coleção de DVDs, o advento do Blu-ray representou, antes de uma maravilhosa novidade, um complicador. Imagina uma edição definitiva sensacional que você já tinha em DVD (pela qual você desembolsou uma nota!), tendo que ser readquirida graças ao chamariz de alta definição da nova tecnologia? E como fazer com as pilhas de DVDs que do dia para a noite se tornaram obsoletas? A imagem dos antigos discos já parece capenga se comparada aos filmes em raio azul - e nada me tira da cabeça que nos aparelhos reprodutores de Blu-ray e nas imponentes TVs FullHD, a imagem de DVD fica ainda mais chumbrega.

De todo modo, antes de ser um inimigo de nossas economias, os filmes em Blu-ray são um deleite visual sem comparação. Nos últimos meses eu tive a oportunidade de rever filmes que eu não via há tempos e a experiência é totalmente nova. Na edição de Estrada Para Perdição, o diretor Sam Mendes comenta nunca ter imaginado rever um filme que ele conhece frame-por-frame, de uma forma completamente diferente. ‘Na cena com Tom Hanks e Paul Newman sob a chuva... Nunca imaginei que seria possível ver cada gotinha’ – brinca o diretor.

E com esse post a gente começa a conversar sobre edições em Blu-ray que valem muito a pena e outras que deviam ter ficado nas prateleiras. 

Estrada Para Perdição (Road to Perdition, 2002)


Se passando nos turbulentos anos da Grande Depressão, Estrada Para Perdição é considerado um dos últimos rebentos realmente representativos da temática gangster. Mas o que Sam Mendes faz aqui é pegar o espectador pelo coração. O foco da narrativa está nas relações familiares: um pai de família (Tom Hanks) cujo histórico de assassinatos a mando da Máfia embruteceu seu tino paterno – ao longo da trama ele é obrigado a refazer o caminho. Uma criança que presencia uma cena de assassinato e descobre o real ofício de seu pai. Um filho (Daniel Craig) preterido pelo pai (Paul Newman, com 77 anos) que explode em sentimentos de inveja/ciúmes e desejo de vingança.

Além desse elenco (Hanks, Craig, Newman, Jude Law, Stanley Tucci, o garoto Tyler Hoechlin) o cuidado com o visual é uma marca de Estrada Para Perdição. O lendário diretor de fotografia Conrad Hall (premiado com o Oscar por esse trabalho e por Butch Cassidy e Beleza Americana) parece ter vivido para realizar a cena comentada por Sam Mendes: o vingador Tom Hanks de posse de sua metralhadora sentencia metade do cast do filme, debaixo de chuva. É a cena do cartaz.

Motivo mais que suficiente para rever o filme em Blu-ray, que também conta com um Making Of especial da HBO, Cenas Excluídas, um estudo da Arte de Conrad Hall e uma análise do universo de Road to Perdition, com base na Graphic Novel. A caixinha da edição nacional é simples, sem luva, sem arte interna. 



Próximo post da série Blu-ray: SCARFACE!


segunda-feira, 16 de janeiro de 2012

SPIELBERG!



Para a turma que cresceu nas décadas de 80/90, é impossível dissociar a paixão pelo cinema dos filmes de Steven Spielberg. Estamos falando do pânico de tomar banho na praia graças a Tubarão, da relação tão sincera quanto improvável entre Elliot e o ‘homem da lua’ em ET, do encantador desfecho de Contatos Imediatos, das incríveis aventuras do arqueólogo Indiana Jones e seus atrozes perseguidores ou ainda das feras tão reais assombrando humanos no Parque dos Dinossauros. Tudo isso salvaguardado pela retumbante trilha sonora do mestre John Williams.  Steven Spielberg é um dos caras que ensinou a nossa geração a amar a arte nº 7. E está em perfeita forma, agora com dois filmes em cartaz – completamente diferentes um do outro. Cavalo de Guerra e As Aventuras de Tintim.





As Aventuras de Tintim!



Desde que os primeiros rumores desta adaptação surgiram, já envolvendo os nomes de Steven Spielberg e Peter Jackson, os fãs do jovem repórter Tintim começaram a roer as unhas em cólicas de curiosidade. Não é pra menos. Os quadrinhos do belga Hergé são conhecidos no mundo inteiro pela perfeita mistura entre espionagem, mistério e ótimas cenas de ação.

Um frame do original de Hergé,  reproduzido com extrema fidelidade no filme de Spielberg

Os quadrinhos são prestigiadíssimos, é fato. Mas eu mesmo nunca li uma página deles. Era completamente viciado na adaptação para TV, As Aventuras de Tintim, que começou a ser produzida nos idos de 1991 e exibidos no Brasil pela TV Cultura. O vício era tanto, que eu parava qualquer coisa para conferir mais uma peripécia de Tintim e seu inseparável cachorro Milu. Até hoje as vozes dos personagens e a trilha das cenas de suspense fazem parte da minha memória. Hooray, que lindo. E o filme, como ficou?

Jamie Bell e a parafernália técnica de Weta, empresa de Peter Jackson

Adotando o sistema de motion capture (aquela técnica de captar o movimento de atores de carne e osso e transmutá-los para a tela em computação gráfica), o filme de Spielberg é um de um visual formidável que ganha o espectador desde os créditos de abertura. O roteiro condensa três volumes dos originais de Hergé: O Caranguejo das Tenazes de Ouro, O Segredo do Licorne e O Tesouro de Rackhan, O Terrível – todos da década de 1940. O Tintim digital (Jamie Bell, o Billy Elliot) percorre desertos, mares e cidades na corrida pelo tesouro do ancestral do Capitão Hadoque (Andy Serkis, o Gollum), o velho cão dos sete mares.

Hadoque e Tintim farejam as pistas do tesouro

O filme tem vários pontos altos. O primeiro é a agilidade incrível das sequências de ação. A melhor de todas, em 'Marrocos', lembra muito Indiana Jones. E talvez não lembraria tanto se o filme não fosse dirigido por Spielberg - mas é sabido que o cineasta já ouvira estas comparações desde o lançamento de Os Caçadores da Arca Perdida, em 1981. O segundo ponto é o hilário Capitão Hadoque, viciado em rum e dono das melhores frases do filme, ostentando seu vernáculo piratês. Os intrépidos investigadores Dupont e Dupond (Simon Pegg e Nick Frost) estão lá no encalço de um batedor de carteiras que lembra Chaplin. 

O Tintim de Spielberg é cheio de referências ao cinema-clássico: tente encontrá-las

Por fim, as estilosas transições de cena que funcionam como verdadeiras gags visuais. Os passeios entre os devaneios do Capitão e o tempo presente, as mudanças de núcleo narrativo.. tudo isso é feito com muito estilo, com uma cena se misturando à outra. Como exemplo, a sequência em que vemos o navio em pleno mar e dali a imagem vira uma poça d’água que é pisada por um sapato, embaçando a cena anterior: estamos de volta à cidade. 


Contudo, o respeitável ‘Sr. Tintim’, como era chamado na série de TV, temido pelas organizações criminosas, perseguido e odiado, cuja vida estava sempre em risco... aqui parece um garoto xereta, mais ou menos com motivações pessoais, numa trama que é na verdade totalmente do Capitão Hadoque (bebum demais pra cuidar de si mesmo). A única menção ao histórico de glórias do protagonista é um passeio por manchetes de jornal, que exibem casos desvendados por ele no passado.


Ainda assim, seja pelo sentimento de nostalgia ou pelo apelo ultramoderno da tecnologia a favor do cinema, O Segredo do Licorne é uma aventura deliciosamente sinuosa, ao melhor estilo Spielberg, como já não se vê há algum tempo.

O filme estreia nesta sexta-feira, dia 20 de janeiro.

1 dica: Abra as quatro últimas imagens em novas abas, para vê-las em tamanho gigante.


Cavalo de Guerra



Graças à fotografia que chama atenção logo nos primeiros quadros e à trilha sonora de compassos bem marcados, a primeira parte de Cavalo de Guerra remete àqueles filmes super antigos, fotografados em Technicolor. Um amigo que via o filme comigo, comentou ‘tem um clima meio ...E o Vento Levou’. E tem mesmo. Mas eu lembrei também de Lassie, de 1943, daquele Virtude Selvagem de 1946 e de A Canção do Sul, também de 1946 - que além de em maior ou menor escala, explorarem a honestidade das relações entre bichos e homens, também são caracterizados por esta trilha sonora mais incisiva.


O filme do Spielberg talvez pese a mão no drama, dando cartaz àqueles sempre mordazes críticos de sua obra, que o acusam de exagerar nas sentimentalidades. Observe a cena em que Albert (Jeremy Irvine, estreante) rasga o condado de Devon, Grã-Bretanha, na mais desenfreada carreira, para descobrir que Joey está sendo vendido ao exército por mirrados 30 dinheiros. O garoto então abraça o cavalo, o rosto desfigurado em lágrimas, e sussurra algo como ‘A gente vai ficar junto de novo...’. Ao observar o chororô, um oficial assevera: ‘Isto é um cavalo, não um cachorro’ e leva Joey embora, aos puxavões.


A despeito disso, o cenário de Cavalo de Guerra é caro ao diretor. Afinal de contas, quando o assunto é guerra, Spielberg é sem barreiras. Lembrar da produção Band of Brothers e dos arrebatadores O Resgate do Soldado Ryan e A Lista de Schindler, responsáveis pelas mais importantes premiações do cineasta. E é graças ao cenário, a melhor sequência do filme, onde o cavalo, depois de dar provas de sua bravura, percorre as trincheiras em galope, as bombas estourando incessantemente ao redor, até ficar imobilizado no emaranhado de arame farpado, exatamente entre os fronts dos alemães e dos ingleses. Em solidariedade ao animal ferido, um soldado alemão e outro inglês se unem a fim de libertar o bicho.

O papo entre os dois inimigos é fantástico já que prova, ainda que em tom de metáfora, o quão inconsciente e absurda é a lógica da guerra, com seus jovens combatentes, cheios de sonhos e esperanças, sem entender com clareza o porquê de toda aquela barbárie. 


O que diferencia Cavalo de Guerra das fabulescas obras em technicolor citadas no começo do texto, é que Joey, o potro, não faz aqueles gracejos de bicho-treinado-em-filme-de-sessão-da-tarde. Ele não dá risada, não joga basquete, não sapateia. É um cavalo. O que o torna especial é unicamente a bravura e a lealdade absoluta a seu dono. Mesmo que a guerra os tenha divido. O final é uma tela saturada pelo laranja do sol, dando provas de que o Spielberg que faz a platéia sacar os lencinhos, permanece inabalável.


quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Stanley Kubrick's Boxes


Narrado em tom de mistério por Jon Ronson (que também assina a direção do documentário) Stanley Kubrick’s Boxes é uma incursão pela mansão da família Kubrick, onde o cineasta armazenava centenas (mesmo) de caixas dos mais variados tamanhos e formatos. Metade da mansão dos Kubrick está incrivelmente cheia de... caixas. Como assim? Acompanhe.


Um dos poucos aspectos realmente conhecidos da reservada personalidade de Stanley Kubrick era seu apego um tanto quanto acentuado demais aos detalhes. Essa mania de perfeição – alvo de muitas críticas - explica seu envolvimento em absolutamente todos os campos da produção de seus filmes. Os olhos do diretor esquadrinhavam cada linha do roteiro e acompanhavam de perto o trabalho de toda a equipe.


Kubrick no set de Full Metal Jacket: só voltaria a filmar 12 anos depois

Seja como for, numa carreira de quase cinquenta anos, Kubrick realizou oficialmente apenas doze longas. Se comparado ao rendimento quantitativo de outros mestres como Howard Hawks ou Alfred Hitchcock, Kubrick lançou realmente muito poucos filmes.

Outro aspecto curioso é que os intervalos entre suas produções foram crescendo incrivelmente a cada novo lançamento. Se no começo da carreira, O Grande Golpe (1956) foi lançando apenas um ano depois de A Morte Passou por Perto (1955), seus dois últimos filmes tiveram uma distância de DOZE anos (Nascido Para Matar, de 1987 e De Olhos Bem Fechados, de 1999). O que diabos Stanley Kubrick esteve fazendo durante todo esse tempo? É a pergunta que Jon Ronson quer responder em seu documentário. 

Ronson examina as intermináveis prateleiras

O trabalho de pesquisa inacreditavelmente minucioso que Stanley Kubrick iniciava a cada novo projeto de filme, fez com que um material astronômico se acumulasse em mais de mil caixas de papel, cuidadosamente fabricadas sob encomenda. O que Jon Ronson fez, a convite de Tony Frewin, assistente de Kubrick por 31 anos, foi chafurdar esse vastíssimo material ao longo de cinco anos.

Ainda que não-intencionalmente, o documentário acaba revelando muito sobre o mito de genialidade sempre associado ao trabalho de Stanley Kubrick. O que fez dele um cineasta tão inigualável? Se os filmes não respondem por si, saber como ele trabalhou com tanto afinco em seus projetos mostra uma dedicação que excede uma mera relação de trabalho – era amor puro. 



Título original: Stanley Kubrick's Boxes (TV)
Direção e Roteiro: Jon Ronson
Ano: 2008
Duração: 48 min.

sexta-feira, 2 de dezembro de 2011

STAR WARS!


Uma história sobre homens e seus capacetes de plástico, robôs esquisitões, princesas em penteados questionáveis, cachorros de dois metros de altura pilotando naves espaciais em meio a grunhidos ininteligíveis. O roteiro de Star Wars foi escrito a trancos e barrancos ao longo de mais ou menos dois anos, por um sujeito franzino e recluso chamado George Lucas. Ele vivia numa galáxia extremamente distante, é fato. E apesar de pensar filmes em cifrões, nem ele e nem ninguém jamais imaginou a mina de ouro que a saga seria. No último setembro, 34 anos depois da estreia de Uma Nova Esperança, toda a antologia Star Wars foi lançada no formato do momento, o Blu-ray. Vai vendo.



Na mente de George Lucas, a história funcionava de forma fluida e extraordinária. Narrativa simples pautada no heroísmo contra vilania, personagens carismáticos e acessíveis, finais felizes e muito, muito apelo ao aspecto visual. O problema é que nos anos 1970, quando Hollywood amargava um período de baixa incrível e a tecnologia de efeitos ainda tinha muito a evoluir, realizar as piruetas fantásticas e pirotecnias imaginadas por Lucas era uma missão quase impossível. A equipe de técnicos responsável pelo desenvolvimento dos efeitos visuais teve que criar muitos dos equipamentos e soluções visuais para fazer funcionar, por exemplo, um sobrevôo rasante pela superfície da Estrela da Morte.  


Tanto tempo depois, é fácil imaginar o descrédito com que Star Wars era visto no quando de sua criação. A maioria dos diretores contemporâneos a George Lucas, recém-saídos das universidades, primavam por um cinema mais próximo possível do padrão europeu (Godard, Bergman, Antonioni, Truffaut eram fontes de inspiração para os jovens cineastas) valorizando a essência da linguagem cinematográfica, a sofisticação da narrativa e dos diálogos - e o corte de gastos. Star Wars, fundamentalmente visual, vai na contramão dessa perspectiva, inaugurando o conceito de blockbuster (ou ‘filmes-pipoca’) e elevando à máxima potência o aspecto comercial da época dos grandes estúdios de Hollywood.


Por esse motivo, o legado de George Lucas é frequentemente acusado de desviar a rota de Hollywood nos idos dos anos 1970, criando um novo estilo de cinema, com gastos astronômicos e pontaria nos itens de consumo que vão de miniaturas dos personagens até barras de chocolate com Han Solo em carbonita. O insondável montante de grana fruto do mershandising incentivou a indústria do cinema a priorizar personagens simples e bidimensionais que pudessem ser transformados em brinquedos, em vez de personagens mais complexos. William Friedkin, diretor de O Exorcista, diz ‘O que aconteceu com Star Wars foi o mesmo que quando o McDonald’s se estabeleceu e o gosto por boa comida desapareceu. Agora estamos num período de involução. Tudo está sendo sugado para dentro de um grande redemoinho’.


Uma polêmica sem fim. Talvez o que mais chame atenção é a impressionante atualidade de tudo isso. ‘Cinema-arte’ versus ‘Cinemão’, a constante evolução da tecnologia a serviço do cinema, 3D, Blu-ray, marketing, arte, dinheiro, dinheiro, dinheiro. O fenômeno criado por George Lucas continua a captar novas gerações com suas infinitas ramificações, seja com a Nova Trilogia, seja com LegoStarWars, CloneWars e mais. A discussão transcende Star Wars e seu universo fantástico. De todo modo, em meio ao turbilhão de incertezas sobre os rumos do cinema, há quem consiga, sem grandes traumas, frequentar o McDonald’s num dia e no outro, o Gusteau’s.





Coleções em DVD e agora, em Blu-ray. Juro que parei de gastar com Star Wars.

*Reeditado para o StarWarsDay de 2012.
  E eu voltei a gastar com Star Wars pra ver a volta da nova trilogia ao cinema, em 3D

terça-feira, 18 de janeiro de 2011

O Clube do Filme - o cinema é o professor


David Gilmour estava numa situação complicada. Crítico de cinema desempregado, sem novas perspectivas de trampo e com grana contada, ele se depara com a precária condição de seu filho, Jesse Gilmour, na escola. O garoto de 15 anos estava reprovando em todas as disciplinas, despreparado e completamente desinteressado pelos estudos. Diante disso, o pai aflito visualiza um futuro marginal iminente para seu filho e resolve tomar uma decisão arriscada e muito corajosa a fim de reverter o quadro.

Tratava-se de um método de educação particular e nada ortodoxo. O filho não precisaria mais ir à escola (como era sua vontade) não precisaria trabalhar (para não ter que substituir uma atividade odiosa por outra), e poderia acordar às 17h todos os dias. No entanto teria que assistir a três filmes por semana, da escolha do pai e na companhia dele. O envolvimento com drogas romperia o contrato imediatamente. Acordo feito, começava então o Clube do Filme.


Falando assim, David Gilmour parece ser o melhor pai do mundo. Só que imagina a pressão do cara ‘Eu posso estar destruindo o futuro do meu filho com essa decisão’. Mas ele acredita que é possível sim ser uma pessoa saudável, inteligente e madura mesmo odiando a escola. Sem falar que, do alto de seus 50 anos, se vê procurando emprego de entregador – sem sucesso. 'Eu podia estar esperando por um emprego, mas não estava esperando pela vida. Ela estava ali, bem ao meu lado, na cadeira de vime’. É um sujeito genial, esse David.

O livro que ele escreveu é um material excelente para cinéfilos curiosos, já que discorre de forma muito apaixonada sobre diversos filmes dos mais variados gêneros. Mas é, sobretudo, uma deliciosa história no formato Pai – Filho. Ele acompanha as crises de idade enfrentadas por Jesse (penosas dores de amor, vícios, surtos criativos) enquanto assiste seu filho ganhando idade e asas pra ir embora do ninho. Impossível não se sentir um pouco Jesse e um pouco David ao ler O Clube do Filme. Vale a pena.